Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


           A cachaça e o vinho

     Outro dia, indignado, lancei mão da caneta e escrevi uma pequena crônica fazendo uma ampla e definitiva defesa da cachaça.
     Horas depois de divulgá-la, o telefone tocou. Atendi. Era um amigo de antigas e delirantes patuscadas. 
     Tomou mais de uma hora do meu precioso tempo só para dizer que aprovava  e aplaudia o que eu escrevera sobre o que ele chamou de "a gloriosa cana".
     Eu tinha absoluta certeza de que receberia dele a mais irrestrita e insofismável solidariedade.  Conhecia-o desde os meus tempos de boemia, em Fortaleza.
      Percorremosjuntos, não apenas uma, mas dezena de vezes, ruas e bairros da capital cearense, fazendo serenatas.
     Serestas que agradavam, e muito, nossas namoradas que, lendo M Delly, adormeciam ouvindo Lucio Gatica cantar Contigo em la distancia.
    
Muito bem. Antes de mais nada, quero, como o fiz daquela vez, deixar claro que não me considero um amigão da cachaça.
     O que nunca me impediu de sair em sua defesa, logo ao perceber que alguém, por isso ou aquilo, tenta profaná-la.
     A cachaça é, por excelência, a bebida do povão. Não é novidade. E o que o povo um dia consagrou, deve ser respeitado, custe o que custar. 
     Ontem só consumida pela gente pobre, hoje, a cachaça agrada plenamente o paladar da elite "bibente".  Os bebedores de cachaça chegam a afirmar que uma boa pinga faz a gente esquecer o melhor escocês.  Não posso confirmar porque sou exclusivo da cerveja.
     Mas vamos relembrar o que me levou a escrever uma crônica em defesa da cachaça. Rapidamente.
     Seguinte. Lera num jornal do Sul, que três boêmios, frequentadores de uma praia do litoral paulista, tinham morrido, depois de ingerirem "cachaça temperada com pedaços de jararaca".
     O dono do bar lhes informara que a tal pinga tinha um incomparável sabor e ainda era afrodisíaca. Eles acreditaram, e encheram a cara.
     Bati forte no profanador da velha cana.
     Entre outras coisas, afirmei que uma garrafa de cachaça não podia virar sarcófago de serpentes. E mais: que essa de cachaça com jararaca tornar-se um excelente estimulante sexual, era mentira. E lembrei aos desavisados que, para uma irretocável ereção, a ciência, generosa, oferecia o Viagra.
     Aproveitei para dizer, que, no sertão do Nordeste, o matuto dá melhor sabor à cachaça, adicionando-lhe raízes de plantas ditas medicinais, como a umburana. 
     E para aqueles sem acesso ao Viagra, o sertanejo aconselha o chá de catuaba, um produto natural, capaz de produzir surpreendentes efeitos eróticos...

     Também, cá, na Bahia, noticiaram as gazetas, a cachaça passou por um processo de criminosa adulteração. 
     Só que, por aqui, ao invés de cobras, os profanadores injetaram dozes cavalares de metanol na pinga. Resultado: os que a ingeriram, morreram. 

     A sacanagem, agora, é com o vinho. 
     Li que um comerciante de Pernambuco botou cobras no vinho de sua adega.
      A nota não esclarece se jararaca ou cascavel.  Diz, apenas, cobras.
     Assim agira, por vingança: seu fornecedor passara a lhe cobrar débitos atrasados.
     Sou, apenas, um modesto enófilo.
     Por isso, tenho um profundo respeito pelo vinho, para muitos a bebida dos deuses. A verdade é que o vinho sugere alguma coisa de místico.
     Creio que ele foi o drinque preferido de Jesus. Dele e de todos os que O acompanhavam nas suas andanças por Betânia, Cafarnaum, Nazaré, Emaús, e outras cidades da Palestina, hoje sendo impiedosamente bombardeada por Israel.
     Em Jericó, o pequeno Zaqeu deve ter recebido o Rabino, para o pernoite de que fala a Bíblia, com algumas taças de vinho. 
      Homem apatacado, é de se supor que sua adega era, possivelmente, a melhor de Jericó.
     Em Betânia, Lázaro deve ter feito o mesmo que Zaqeu, agradecendo ao Mestre pela ressurreição.
     Nas Bodas de Caná, a bebida da vez, foi o vinho.  E quando ele faltou, que fez Jesus? Transformou a água em vinho, e da melhor qualidade, conta o evangelista João, o Teólogo. Por último, nas missas, com a consagração, acreditam os católicos que o vinho vira Sangue de Cristo.
     Noite dessas, durante uma rodada de vinhos, chamei o Reserva chileno que degustava, de bebida sagrada. E acrescentei: adulterar o vinho é pecado. Houve quem me chamasse de blasfemo... 

Nota - A foto: No Amarelinho, na Cinelândia-Rio de Janeiro, eu, entre a caneta e o chope...
     
     

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 22/01/2009
Alterado em 07/02/2014


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras