Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                     Com três tiros 
                             na madrugada

                           (Conto)


     Ele dizia: - "você, um dia, vai ser minha".
      Ela respondia: - "Eu? Nunca".
      Este diálogo acontecia todas as vezes que  o comerciante Diógenes dos Santos Ferreira encontrava Artemísia, a caixa de sua loja, A Preferida,  uma das melhores casas comerciais de Lunápolis, uma pequena cidade escondida nos cafundós do nordeste.
     Para que ninguém percebesse o assédio, Diógenes fazia suas juras de amor sussurando no ouvido de sua linda empregada.
     Artemísia tinha vinte e dois anos de idade e Diógenes era  mais velho do que ela dez ou quinze anos.
     
Da classe média, pudica, católica praticante, Artemísia frequentava, regularmente, a igreja matriz. Carregava no seu busto, atraente e suplicante, uma bonita Medalha Milagrosa.  Em uma das mãos, um Rosário de contas peroladas, e, na outra, um pequeno Adoremos.  Comungava diariamente, depois de uma cuidadosa confissão auricular. 
     Fazia parte da Congregação Mariana. Cantava no coral da paróquia nas novenas da padroeira.
 Não tinha uma voz bonita. Mas, cantando, seu rostinho caboclo e sua boca coroada por fartos lábios encantavam os paroquianos e envaidecia o bom e virtuoso vigário, seu tio, irmão mais velho de sua mãe. 
     Artemísia mexia com o coração dos rapazes de sua cidade. Brindandava-os com sorrisos ingênuos e tentadores. Mas, nada de namoro. As moças de sua idade, por despeito ou por ciúme, buxixavam: - "Olha, ela nem é essa mulher toda!"  A rapaziada  não concordava, e seguia elogiando a beleza de Artemísia, irritando o ciumento Diógenes. 
     Os mais afoutos passavam, todas as manhãs, duas e até mais vezes pela A Favorita  para ganhar o doce "Bom dia!" de Artemísia.

     Diógenes não aceitava a popularidade que sua empregada ganhara. Num determinado momento, pensou em afastá-la do caixa e colocá-la no escritório; tirá-la da vitrina. Só não o fez, temendo a repercussão negativa que poderia advir do súbito remanejamento da "menina mais bonita da rua do comércio". 
     Não esquecera o que havia acontecido nos dias que Artemísia, atingida por  forte gripe, faltara uma semana ao trabalho. 
O povo queria saber do patrão o porquê da ausência da sua meiga empregada.  
     - "Cadê Artemísia?", perguntava o gari, o Juiz de Direito, o Promotor Publico, o Delegado de polícia, o diretor do Hospital, o sacristão da matriz, as freirinhas do colégio e até o pastor evangélico tido como um sujeito sisudo, ligado somente nas mulheres da Bíblia. 
      Diógenes era um sujeito feio, mas um homem rico e metido a conquistador. Não chegava a ser odiado por seus empregados; mas poucos o consideravam um bom patrão. 
     Mas era paparicado pela sociedade local porque ajudava, com uma boa grana, as campanhas beneficentes promovidas pela Igreja, pelos clubes de serviços, pelas damas apatacadas da  cidade e pela Maçonaria, da qual fazia parte.

      Diógenes provocava encontros com Artemísia inúmeras vezes e no mesmo dia.       Nesses encontros perguntava sobre a posição do caixa e aproveitava para distribuir galanteios. Artemísia informava com segurança e precisão. Não podia fugir;  precisava do emprego. Suportava, constrangida, as "emboscadas"  do seu irrequieto patrão, sem ceder um só mometo; uma única vez. 
     À amiga e confidente Maria Helena dos Anjos, também empregada na loja,
Artemísia repetia sempre e sempre que  "jamais" aceitaria o Diógenes; nem que ele fosse solteiro; e que o odiava como patrão e como homem. 

     Helena tinha a mesma idade de Artemísia. As duas eram dos primeiros dias de maio. Filhas da mesma cidade, frequentavam a mesma pracinha; rezavam na mesma igrejinha e, coincidentemente, sonhavam os mesmos sonhos.
     Artemísia tivera mais sorte do que Helena: a Natureza a fizera uma sertaneja formosa. Seus olhos, nádegas, pernas e principalmente os seus seios encantavam moços e velhos. Helena era feia. Em compensação, era de uma generosidade  incomum. Nos momentos mais difíceis de Artemísia, ela era o anjo da guarda da amiga amargurada. 
 
     De tanto vê-las juntas, Diógenes achou que Helena estava tirando Artemísia do seu caminho. Pensou em demitir Helena. Mas temia que Artemísia,  solidarizando-se com a amiga, pedisse as contas.  Depois de muito meditar, concluiu que o certo seria continuar com Helena, afastando dessa forma o risco de perder Artemísia.
     Passou a negar tudo a Helena. Determinou sua imediata transferência do departamento de vendas, cortando as gratificações a que ela fazia jus porque era, comprovadamente, uma excelente vendedora. 
      Para Artemísia, tudo. Até a promessa de um futuro melhor com sua  imediata promoção ao posto de sócia da firma.
     Os dias foram passando e  Diógenes cada vez mais apaixonado por Artemísia. Já nem ligava para Helena que, corajosa, dava ostensiva demonstração de que não concordava com o comportamento do patrão.
     A cidade inteira passou a comentar o assédio e a condenar a conduta de Diógenes, casado e pai de três filhas.  
     Atrevido e desesperado, Diógenes ensaiou limitar os passos de Artemísia, exigindo que ela não fosse a este ou àquele lugar; que não falasse com fulano e muito menos com sicrano e com beltrano. 
     Suas exigências, entretanto, não eram obedecidas pela sua empregada que, com o apoio da Helena, não mudou um só de seus hábitos. 
 Continuou visitando as amigas; caçoando com a rapaziada; e batendo pernas pela cidade, certa de que chegaria o momento em que teria que enfrentar Diógenes , eliminando-o definitivamente de sua vida.
                    *  *  *

     As famílias tradicionais de Lunápolis (cidade de belos luares, daí o seu nome) costumavam promover animados bailes em suas residências; bailes que se prologavam até alta madrugada. Num sábado de dezembro, próximo ao Natal, antes de deixar a loja, Artemísia recebeu um convite para a festa dançante que à noite se realizaria na casa dos Vianas. 
Diógenes soube do convite; e que Artemísia, acompanhada de Helena, iria ao baile, anunciado como o melhor do ano. Procurou Artemísia e lhe disse: - "Olha, rasgue o convite. Ir a esta festa sem mim, nem pensar." Artemísia respondeu-lhe com altivez: - "Eu vou!", convicta de que chegara o momento de bater de frente com o seu  perseguidor. 
   
     Guardou as chaves do caixa e pegou o caminho de casa.  Passou na igreja e fez uma rápida oração. Com as luzes da pracinha acesas e a cidade cheirando a incenso - era a Hora do Angelus -, Artemísia entrou em sua casa, cantarolando.Tomou um banho, botou perfume, vestiu  seu melhor e mais bonito vestido.  E ficou aguardando Helena, que prometera não demorar. 
               *  *  *
     Enquanto a orquestra do maestro Colombo tocava as primeiras valsas,  os convidados chegavam à casa dos Vianas. 
     Anunciava-se que estariam presente as mulheres mais charmosas  e os cavalheiros mais chiques de Lunápolis. 
 
       Salgadinhos, pastéis e tortas, arumados em bandeijas de prata, foram sendo espalhados por todos os cantos da imponente casa. Os garçons serviam cerveja, vinho e sucos, desdobrando-se em gentilezas. Cumpriam o rigoroso cerimonial.
               *  *  *

     Artemísia chegou no palácio dos Vianas por volta das onze da noite na companhia de Helena e do jovem advogado Marcelo Serpa, profissional respeitadíssimo no Fôro de Lunápolis. 
     À meia-noite, exatamente à meia-noite,  furibundo, chegou Diógenes. 
     No amplo e iluminado salão viu Artemísia.
Sorridente, descontraída, ela dançava um fox antigo com o advogado Marcelo. 
     Bruscamente, Diógenes a interpelou. e antes que a moça dissesse alguma coisa, ele sacou do seu Shmidt Wessen e atirou três vezes, ferindo mortalmente aquela que ele dizia ser o seu grande amor. 
     Uma das balas atingiu, de raspão, a perna de Helena, que saíra em defesa da amiga.      Os convidados, em polvorosa, cuidaram de deixar o local do crime.
                    * * *
     O velório de Artemisa foi aos pés de Nossa Senhora das Dores, a padroeira de Lunápolis. Presidiu a missa de corpo presente o monsenhor José Tito que, inconsolável, lamentou, na sua rápida homilia, o que acontecera com sua sobrinha.
     Os sinos da matriz dobravam lentamente, enquanto o corpo de Artemísia era levada pro cemitério. 
     Numa cela da cadeia da cidade, Diógenes chorava, copiosamente, ouvindo a cidade inteira clamando por justiça. Todos queriam sua imediata condenação.

     Meses depois do crime, Diógenes compareceu ao Tribunal do Júri.  O doutor Jairo de Matos, Promotor Público, leu o libelo crime acusatório, segundo ele, o mais perfeito que até então escrevera. Como auxiliar da acusação, funcionou o advogado Marcelo Serpa. 
     Acusado pela prática de homicidio doloso, Diógenes foi condenado a vinte anos de reclusão, em regime fechado. A setença, rigorosa e bem-fundamentada, foi assinada pelo Juiz da Comarca, doutor Mario Coutinho. 
     Diógenes dos Santos Ferreira ouviu a sentença com serenidade.  Foi recolhido ao xadrez, sob o olhar vingado de Helena, que não parava de chorar.  

     Da cadeia, o comerciante criminoso saiu no  mesmo dia em o povo rezava, na igreja matriz, a missa lembrando os vinte e cinco anos da morte de Artemísia, assasinada, com três tiros, numa cálida madrugada da sertaneja Lunápolis.


        

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 03/08/2009
Alterado em 25/12/2018


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