Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                                A rede
                     no verso e na prosa



               1. Como todo cearense, sou louco por uma redinha. Até aonde minha memória - já bastante corroída pelo furor implacável dos anos - me leva, a cama, na casa dos meus pais, só apareceu quando eu comecei a perder os meus primeiros dentes de leite.
               Fato confirmado por minha saudosa mãe, extraordinária cronista do dia a dia de nossa família, poucos meses antes dela partir, para nunca mais voltar. Viveu noventa e seis anos! Viu muita coisa. 
               2. Todos nós - meu pai, minha mãe e meus oito irmãos - dormíamos, até a chegada das camas, em confortáveis redes avarandadas.
               Lembro-me muito bem das varandas, largas e bordadas, das redinhas de minha infância, tecidas, com religiosa dedicação, pelos donos dos modestos teares de minha cidade sertaneja, no comercinho dos anos 1940.
               3. Nas redes, ouvi as primeiras canções de ninar; as primeiras estórias da Carochinha; e aprendi a recitar as orações pedindo a proteção do meu santo Anjo da Guarda. Nelas, adormeci sonhando os meus primeiros sonhos, inocentes todos, em noites de calor intenso que as redinhas ajudavam a suportar.
               4. Minha mãe que, sobre a família, escrevia tudo; anotava tudo; guardava tudo na sua prodigiosa memória, nunca me confirmou o que, certa feita, eu ouvira do meu pai, ou seja, que eu havia sido feito, entre um balanço e outro de uma uma redinha malandra, numa noite qualquer do ano de 1934.
               Também nunca duvidei porque, no meu gaiato nordeste, costuma-se afirmar que "numa rede entra dois e sai três..."
               5. A propósito, em belo poema, o poeta Carlos Drummond de Andrade, com sua delicada irreverência, mostra quão belo é "fazer amor" numa rede.
               Eis o poema: "Iniciação Amorosa - A rede entre duas mangueiras/ Balançava no mundo profundo./ O dia era quente, sem vento./ O sol lá em cima,/ As folhas no meio,/ O dia era quente./ E como eu não tinha nada que fazer/ vivia/ Namorando as pernas morenas da lavadeira./ Um dia ela veio para a rede,/ Se enroscou nos meus braços/ Me deu um abraço,/ Me deu as maminhas/ Que eram só minhas./ A rede virou/ O mundo afundou./ Depois fui pra cama/ Febre 40 graus febre/ Uma lavadeira imensa/ Com duas tetas imensas/ Girava no espaço verde."
               6. A rede, de indiscutível perfil romântico (ela une completamente os corpus nus de duas pessoas que se juntam para amar...), está no verso e na prosa de festejados escritores e poetas, como estes que agora me veem à lembrança.
               Casemiro de Abreu. No poema A Rede, lá pras tantas, versejou o poeta: ..."Nos bosques a vi... Dormia deitada na rede de penas/ - o céu por dossel..."
               Olegário Mariano. Numa rima sobre a amaldiçoada seca, no  poema O Milagre do Nordeste, ele escreveu: " - Deus! Meu cavalo ontem morreu de fome e sede,/ Enterrei-o envolvido em minha rede:/ Era o que tinha de melhor para lhe dar."
               Adelmar Tavares.  O poema A Rede de Dormir - Para dormir numa rede,/ cumpre logo prevenir,/ não é chegar  e deitar,/ nem é deitar e dormir.  ==  A rede é como o cavalo,/ que para a gente montar,/ tem que primeiro amansá-lo/ para depois governar...  ==  Tem de procurar o jeito/ de deitar enviesado/ pois não dando esse jeitinho/ não está, em regra, deitado...  ==  E em deitado, deixe sempre,/ um certo espaço, porque/ vem o seu anjo da guarda/ deitar, dormir com você."
               7. Em recente artigo publicado no jornal O Povo, de Fortaleza, a escritora Ana Miranda escreveu sobre a rede de dormir. E no seu inconfundível estilo, disse: "A rede toma o nosso feitio, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo."
          Transcreve, em seguida, estas linhas do folclorista potiguá Luiz da Câmara Cascudo: a rede "é acolhedora, compreensiva, ondulante, acompanhando, morna e brandamente, todos os caprichos das nossas fadigas e as novidades imprevistas do nosso sossego."

               8. Rachel de Queiroz, em entrevista dada à VEJA, em 1996, indagada se só dormia em rede, vejam o que a saudosa autora de "O Quinze" respondeu: "Durmo em rede desde pequena. Aprendi no Ceará. A cama do meu quarto é chamada de a cama de Capistrano. Isso porque o Capistrano de Abreu também dormia numa rede e tinha uma cama ao lado. Usava-a para empilhar livros e um dia quase morreu porque os livros caíram por cima da rede dele. Minha cama também serve para guardar livros. É um ótimo depósito. "
          
9
 Perguntada se dormir em rede fazia mal, eis o o que a inesquecível Rachel respondeu: "Não. Nós, os inventores e usuários de redes, só nos deitamos na diagonal, porque assim ela fica rígida. Só os ignorantes aqui do Rio de Janeiro é que se deitam ao comprido na rede. Eu nunca caí de rede. Pelo contrário, caí de cama. Meu marido e eu dormíamos em duas camas paralelas. Quando ele consiliava o sono, eu fugia devagazinho e ia dormir na minha rede."
          
10
. Renovo, aqui, o meu irretocável amor pelas redinhas de dormir. No meu quarto, cá no meu apartamento, há uma à minha espera; com a meiguice de uma dama, ela me acolhe nas minhas fugidinhas da confortável cama de casal, no meio das madrugadas...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 27/04/2015
Alterado em 20/09/2019


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