Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                Três baianos em Sampa

     1. O táxi me apanhou na Avenida Paulista e me deixou na Rua Theodoro Sampaio. No caminho, enfrentando, com paciência e resignação o trânsito cruel da Paulicéia, abri um cauteloso papo com o taxista. 
     2. No decorrer da prosa e pelo sotaque, descobri que o taxista era baiano nascido em Carinhanha, simpática cidade ribeirinha do São Francisco, no sudoeste da Bahia.
     3. Depois de saber que eu morava em Salvador, Jorge, um cidadão moreno e de cabelos grisalhos, confessou-me ter saudades de sua distante Carinhanha. E enfatizou: "É uma cidadezinha porrêta! Saí de lá, tem uns trint´anos. Mas ainda me lembro perfeitamente do meu último mergulho no Velho Chico, nuzinho como Adão."
     4. Enquanto me aproximava do local de desembarque, perguntei ao Jorge se ele sabia quem era Theodoro Sampaio. Foi sincero: "Sei não senhor." Pedi-lhe alguns segundos para lhe dizer que Theodoro Sampaio era seu conterrâneo. A informação deixou-o surpreso e encantado. Jamais podia imaginar - disse com todas as letras - que uma avenida tão importante da capital paulista tivesse o nome de um baiano.
     5. Dando uma de professor de História, passei para ele as informações que tinha sobre o engenheiro, geógrafo e historiador Theodoro Sampaio. Que ele nascera em 7 de janeiro de 1855, na cidade de Santo Amaro da Purificação, a terra de Caetano e Maria Betânia. E ele, discretamente, sussurrou: "E os novos baianos passeiam na tua garoa/ E os novos baianos te podem curtir numa boa." E me perguntou: "O senhor conhece essa música do Caetano?" Disse-lhe que conhecia e que adorava a bela canção do compositor de Alegria! Alegria!.
     6. "E por que o Theodoro veio parar em Sampa? O que fez por aqui de bom para merecer tão significativa homenagem?" Como o tempo era curto e o taxímetro avançava célere, fiz para o taxista Jorge um resumo da vida do Doutor Theodoro.
     7. Theodoro Fernandes Sampaio, seu Jorge, era negro, filho da escrava Domingas da Paixão. Enfrentou com dignidade a intolerância racial do seu tempo e a decisão do seu pai de não reconhecê-lo como filho. Conquistou com brilhantismo os diplomas de engenheiro, geógrafo e historiador, com reconhecimento nacional.
     Na capital bandeirante viveu 10 anos e se destacou pelo seu saber consolidado e útil à administração do Estado. Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. 
     Poucas informações, mas o bastante para deixar o Jorge sabendo por que a Theodoro, uma das ruas mais importantes da capital paulista, tem o nome de um dos seus mais ilustres conterrâneos.
     8. Quando Jorge pensava que eu havia terminado minha "aula" , eis que o surpreendi com mais duas impactantes informações. Disse-lhe que mais duas importantes ruas de São Paulo tinham os nomes de dois iluminados baianos. E ele: "Não acredito!"
     9. De olho no taxímetro, apontei-lhe a Avenida Rebouças e a Rua Oscar Freire. E ele, boquiaberto: "A chiquérrima Oscar Freire?" Ela mesmo, e completei: Oscar Freire de Carvalho nasceu em Salvador no dia 3 de outubro de 1882.
     Competente Médico Legista, ele ajudou a fundar o Instituto Médico Legal de São Paulo (IML) e teve participação decisiva na implantação do ensino da Medicina no Estado paulistano. Morreu em 11 de janeiro de 1923.
     10. Me despedia, quando o Jorge, pegando-me pelo braço, indagou: "E a Rebouças, doutor?" A pressa - tudo em São Paulo se faz correndo - me permitiu dizer-lhe, apenas, que André Pinto Rebouças, negro como Theodoro Sampaio, nascera no dia 13 de janeiro de 1838, na cidade de Cachoeira no recôncavo baiano. Era formado em engenharia militar e regeu, como professor catedrático, a cadeira de Resistência, na Escola Politécnica do Largo de São Francisco.
     Amigo do Imperador, Rebouças preferiu o exílio, com a chegada da República. Uma curiosidade: fixou-se em Funchal onde morreu no dia 9 de maio de 1858, pobre e completamente esquecido.
     11. Com um aperto de mão, o taxista Jorge se despediu, com essa observação bem da Boa Terra: - "Doutor, mas qui baianos retados! Axé!" E eu: é isso aí, amigo, baiano burro nasce morto, diz o dito popular...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 20/05/2015
Alterado em 22/02/2016


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