Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

              Se eu fosse um padre...

     1. Neste inverno, os termômetros de Salvador têm registrado temperaturas surpreendentes, para não dizer esquisitas. Algumas tardes soteropolitanas me têm dado a sensação de estar no alto de uma serra e não  numa península. Não estou exagerando.
     2. Tarde dessas, a temperatura despencou tanto, tanto, que me senti em Guaramiranga.           Para quem não sabe, Guaramiranga é uma pequena cidade que fica na serra de Baturité, a 110 km de Fortaleza.
          Em Guaramiranga, "as frutas têm cheiro de flor", escreveu Rachel de Queiroz, em delicada crônica sobre esse paradisíaco recanto alencarino.
     3. Hoje, não bastasse a baixa temperatura vespertina, desceu sobre Salvador uma neblina teimosa, densa, lembrando a garoa paulistana.   Da minha janela, foi difícil ver o mar.  
      4. O chuvisco não me deixou sair de casa; permaneci junto aos meus livros e na agradável companhia dos meus escritores preferidos.
          Liguei meu I Pad, cliquei em Orlando Silva, e me dei ao luxo de ficar ouvindo gostosas valsas do cantor das multidões; e saboreando boas leituras.
     5. A tarde fria aconselhou-me a ler poesias;  e nada de prosas. Desliguei-me do WhatsApp para não ser procurado por ninguém; e mergulhei nas páginas de Cecília, de Bilac, de Vinicius, de Drummond e nos versos do Quintana, sem a preocupação de ser encontrado.
     6. Lá pras tantas, em Quintana, descobri três pensamentos do vate gaúcho sobre o relógio e um soneto que me chamaram a atenção.
     Os pensamentos: - a) "O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou gerações da minha família." - b) "Esse tic-tac dos relógios é a máquina de costura do tempo a fabricar mortalhas." - c) "Não se devia permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais do que o ponteiro das horas."
     7. Lendo-os, achei que devia falar sobre o meu velho e querido relógio de parede. Esse relógio, meu caro leitor, está sob meus cansados olhos, mas sempre atentos ao passar do tempo, há mais de 30 anos.
     Ao longo dessas três décadas, ele tem trabalhado sem pedir a ajuda dos relojoeiros e ininterruptamente. Queria tanto que ele me acompanhasse até minha despedida definitiva...
     8. E o soneto? Como sabe o meu paciente leitor, vivi parte de minha vida nos seminários franciscanos. Queria ser padre, mas não deu. Deus sabe o que faz.
     9. Já como ex-seminarista, fiz publicamente esta pergunta: se eu fosse um padre, que teria a dizer aos fiéis?
          Choveram palpites, alguns extravagantes, mormente dos que sonharam em me ver envergando o burel seráfico, hoje, como acontece com todas as batinas, praticamente fora de uso, o que é uma pena.
     10. O tempo foi passando, eu fui desconsiderando as respostas, e pondo de lado a indagação que ousara fazer, depois de deixar os claustros. Certo de que dificilmente encontraria uma resposta sem aquela de condenar o pecador, prometendo-lhe o inferno caso transgredisse apenas um dos Dez Mandamentos.
     11. Reencontrando-me com o soneto do Quintana intitulado Se eu fosse um padre, descobri que nele podia estar a resposta à minha pergunta.
               "Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,/ não falaria em Deus nem no Pecado/ - muito menos no Anjo Rebelado/ e os encantos da sua sedução,  =  não citaria santos e profetas:/ nada das suas celestiais promessas/ ou das terríveis maldições.../ Se eu fosse um padre, eu citaria poetas,/ rezaria os seus versos, os mais belos,/ desses que desde a infância me embalaram/ e quem me dera que alguns fossem meus!/ Porque a poesia purifica a alma/ ... e num belo poema - ainda que de Deus se aparte -/ um belo poema sempre leva a DEUS."
     12. Acho que meu rebanho iria gostar de ouvir isso do seu velho pastor. E  a neblina, virando chuva, continuou tamborilando nos vidros de minha janela já bastante embaçados...
 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 15/08/2015
Alterado em 25/05/2016


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