Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

            Uma palhaçada daquelas

          1. O saudoso escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011), em uma seção que alimentou, na Última Hora de Porto Alegre, e lhe deu o nome de Cotidiano, contava pequenas histórias baseadas em notícias de jornais.
          2. Muitas dessas histórias estão reunidas no livro O Imaginário Cotidiano, que aconselho sua leitura, principalmente nos finais da noite, enquanto o soninho não chega.
          3. Ao decidir alimentar Cotidiano com suas envolventes historinhas, Scliar, que além de escritor era médico, afirmou uma coisa com a qual concordo, sem tirar nem pôr. Disse: ... "atrás de muitas notícias esconde-se uma história pedindo para ser contada."
          4. Fui buscar uma dessas histórias do Scliar para mostrar quão interessante foi a sua ideia de criar esse tipo de seção, de coluna, numa gazeta de larga circulação. 
          A notícia: "Advogado improvisa escritório na praia" - Cotidiano,20.jan.1999.
          A história: "E foram todos à praia - A notícia segundo a qual um advogado carioca tinha instalado o seu escritório na praia do Arpoador gerou reação as mais contraditórias.
     Alguns acharam um absurdo; é uma pouca-vergonha, uma falta de respeito, onde é que se viu praticar advocacia dessa maneira.
     Outros acharam graça: coisa de Rio de Janeiro, foi um comentário que se ouviu bastante. Mas muitos ficaram pensando: será que o Advogado do Arpoador não tinha razão?      Será que não estava certo ele em mandar as convenções para o espaço, em benefício de uma vida mais livre, mais descontraída?
     Não foi surpresa, portanto, quando, próximo ao lugar onde atendia um advogado, apareceu uma barraca com uma pequena placa: "Escritório de Contabilidade". Logo depois surgiu um consultório médico e outro de psicologia.
     Em seguida, foi a vez de um consultor de empresas e de uma agência de publicidade. A essa altura as academias de ginástica se multiplicavam.
     O movimento - um verdadeiro movimento social, organizado, contando inclusive com um lobby no Congresso - já não se restringia ao Arpoador nem ao Rio, mas se propagava rapidamente pelo Brasil.
     Dos Estados interioranos vinham caravanas inteiras, carregando cartazes de apoio à vida na praia. Em breve o litoral brasileiro, de sul a norte, estava todo ocupado por pessoas que, em trajes de praia, exerciam as mais diversas atividades. Todos tranquilos, todos bronzeados,
     Tão bronzeados que pareciam índios. O que deu, a algum estilista, a idéia de criar uma moda retrô com tangas, cocares, tacapes. O que só contribuiu para aumentar a descontração.
     Estão todos na praia, portanto. Mas é com certa apreensão que eles olham para o mar.      Temem que um dia apareça ao largo uma frota de caravelas e que um homem desembarque dizendo, muito prazer, gente, meu nome é Pedro Álvares Cabral." Que finura!
          5. Como cronista, e, por isso, obrigado a acompanhar o que dizem os jornais, até nos seus cantos de páginas, resolvi imitar o Scliar (que ousadia!) comentando uma notícia que não merecera destaque, mas mexera com o coração deste pífio escriba.
          6. Para não perdê-la de vista, recortei-a e a coloquei numa pasta: uma crônica começara  a nascer, a partir do momento em que encontrara aquela notícia num cantinho da Folha de São Paulo.
          7. E eis que chegou o seu dia. A notícia: "PM prende palhaço no Paraná por desacato a corporação." Agora, senhores, vejam, em detalhes, o que foi considerado desacato pelas "otoridades fardadas".
          8. Segundo a matéria, na cidade de Cascavel, o palhaço Tico Bonito (Leônidas Taborda Quadra), da sua tribuna, o picadeiro, em noite de espetáculo, respondendo a uma provocação, afirmou que a polícia "só protege burgueses e o Beto Richa do PSDB", governador do Estado. E completou: "São seguranças particulares  pagos pelo povo."
          9. Foi imediatamente preso, agredido pelos policiais e levado ao xadrez. E diz a nota, que "as cem pessoas presentes reagiram com vaias e gritos." Eu seria mais um a condenar a truculência se estivesse na arquibancada.
          10. O modesto palhaço fora leviano na sua crítica? no seu desabafo? Creio que não. Ouve-se acusações semelhantes, até nas sacristias das igrejas e nas emissoras de rádio e televisão.           Há neste país sempre alguém falando mal de policiais despreparados.
          11. Prisão merecia aquele sujeito que, na cozinha do Palácio do Planalto, recentemente, pregou, na cara da senhora Presidente da República, a luta armada para defender um partido político e seus "marechais".  Nada lhe aconteceu, além dos aplausos dos seus "companheiros". 
          Prender um pobre palhaço, o Tico Bonito, pelas suas declarações políticas (mais administrativas do que políticas) feitas da sua tribuna, o picadeiro, é dose. Talvez uma advertência fosse o bastante. Cadeia dói. 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 22/08/2015
Alterado em 23/08/2015


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