Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

            A estranha caridade
            de um franciscano

          1. Entre os irmãos de hábito de São Francisco de Assis havia um que se chamava frei Junípero. Ele fazia parte dos amigos íntimos do Poverello. Era um homem "de profunda humildade, de grande fervor e caridade".
          2. Aos companheiros de burel, confirmando sua admiração pelo amigo, o santo da Úmbria dizia que "seria um bom frade menor aquele que se tivesse vencido a si e ao mundo como fez frei Junípero".
          3. Certa ocasião, Junípero foi a Santa Maria dos Anjos, em Assis, e lá encontrou um frade enfermo carecendo de cuidados maiores e de apoio. Dirigiu-se, então, ao confrade doente e lhe disse: "Posso prestar-te algum serviço?"
          4. O enfermo saiu-se com essa: "Grande consolação para mim se me pudesse conseguir uma perninha de porco". Junípero, sem maiores delongas, prometeu satisfazer-lhe o desejo e começou a trabalhar nesse sentido.
          5. Com uma faca na mão, entrou pela floresta "onde havia uns porcos pastando"; atira-se em um deles e "lhe corta uma perna".
          Em seguida, lava bem a perna, cozinha, e a leva ao frade doente, "com muita caridade". O irmão enfermo comeu a perna do suíno "com grande avidez".
          6. Quem não gostou dessa história foi o dono do porquinho: indignado, foi ao convento, e, com ásperas palavras, xingou a comunidade franciscana de Assis, e até chamou Junípero de hipócrita.
          7. Diante do barraco armado pelo dono do porquinho, São Francisco, sem saber o que, de fato, acontecera, tentou desculpar seus fradecos; e para aplacar a ira do dono do suíno, "prometeu compensar-lhe todo o prejuízo".
          8. Mas foi em cima de frei Junípero, censurando-o, embora "cheio de amargura".
          E, em nome da Santa Obediência, determinou que o caridoso amigo procurasse o dono do porco e, ajoelhado, lhe confessasse a culpa.
          Junípero obedeceu sem pestanejar.  O dono do porquinho mutilado continuou amaldiçoando os frades. Não queria acordo.
          9. Mas, diante das razões alegadas por Junípero, o homem, "caindo em si", em lágrimas, matou o seu porquinho e depois de cozinhá-lo, o levou, com muita devoção, à igreja de Santa Maria dos Anjos (onde está a igrejinha da Porciúncula)  e alimentou aqueles "santos frades, em reparação das injúrias que lhes fizera e lhes dissera".
          10. São Francisco, considerando a nobreza do gesto de seu filho Junípero, comentou perante sua comunidade: "Meus irmãos, queira Deus que de tais Juníperos eu tenha uma floresta". Francisco de Assis, o justo.
          11. Contei este pequeno conto franciscano - extraído do "I Fioretti del Glaorioso Messere Santo Francesco e de`Suio Frati", em português, "As Florinhas do Glorioso Senhor São Francisco e de seus irmãos", por dois motivos, a saber: para marcar os 788 anos da morte do Poverello, em 3 de outubro passado; e para lembrar a minha querida Canindé. 
          12. Canindé, a 120 quilômetros de Fortaleza, é a cidade de São Francisco no Brasil.
          Em Canindé, no sertão cearense, está o maior santuário seráfico das Américas, reunindo, depois de Assis, o maior número de romeiros e devotos do padroeiro dos animais.
          13. A festa litúrgica, que acontece, todos os anos no dia 4 de outubro, este ano, por causa das eleições, mudou para 16 de outubro.           Portanto, amigo de Francisco, ainda há tempo para ir a Canindé e fazer uma oração aos pés do milagroso santo dos santos.



 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 08/10/2016
Alterado em 09/10/2016


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