Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                   São José, o coadjuvante

          1. Recebi o primeiro cartão de Natal. Veio de uma jovem mulher que, não sei como, descobriu meu endereço residencial.
          2. Ela disse morar em Ouro Preto, ter 25 anos de idade e ser formada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais.
          Helena é o seu nome.
          3. Na sua meiga mensagem, Helena me chama de "meu caro cronista"; e garante que faz repetidas visitas ao meu Site , "lendo e relendo" o que ando escrevendo nas minhas "horas vazias", e publicando.
          4. Lêdo Ivo (1924-2012), estupendo escritor alagoano, sobre sua obra, disse: "O meu leitor não é o que me lê. É o que me relê (caso exista). Um autor lido unicamente uma vez não tem leitores, por mais retumbante que seja o seu sucesso".
          Passo, então, a chamar Helena de minha leitora, porque ela me relê!
          5. O cartão, tamanho postal, destaca o presépio natalino com todos os seus figurantes: Jesus, Maria e José.
          E pastando em torno da manjedoura, alguns animais, sob os olhares vigilantes dos pastores, hoje reconhecidos como testemunhas oculares do "acontecimento sagrado".
          6. Duas coisas me fizeram adorar o cartão da Helena. Primeira coisa: ele não traz o velho Noel afogado em longas barbas e enfrentando uma tempestade de neve; traz, sim, o local onde o Messias teria nascido: uma rude manjedoura no interior de uma modesta gruta belenense.
          7. A segunda coisa: ser o cartão de uma pessoa que, como disse, não conheço. E que, pelos seus dizeres, foram minhas crônicas que me levaram a ela.
          Confesso que me vi, de repente, sacado do anonimato ao qual me considerava irremediavelmente atirado.
          8. O carpinteiro José. Nunca me conformei com o tratamento dado pelos Evangelistas à pessoa do "pai adotivo" do Mestre.
          É notório que ele não mereceu dos escribas do Novo Testamento a devida atenção. Mormente de Lucas e Mateus, os evangelistas que contaram tudo sobre a infância do Rabino da Galiléia.
          9. Na adoração dos magos diante de Jesus, Mateus, no Capítulo 2, versículo 11, do seu Evangelho, escreveu: "Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua Mãe, e prostrando-se, adoraram-no".
          E José? Onde estava José?
          10. A propósito, Bento XVI, no seu livro A Infância de Jesus, comentando a visita dos reis magos, se disse surpreso com a descrição do evento feita por Mateus, deixando José de fora...
          Com a indiscutível autoridade de um dos maiores teólogos do mundo, o ex-papa Joseph Ratzinger escreveu, destemidamente: "Até agora não encontrei uma explicação plenamente convincente para isso".
          11. O jornalista Roberto Pompeu de Toledo, no seu artigo intitulado Um certo José - revista Veja de 21 de dezembro de 2005 -, foi preciso ao mostrar a discreta (forçada?) presença do carpinteiro de Nazaré, nas páginas bíblicas.
          Afirmou Roberto: "José é, por excelência, aquilo que no teatro e no cinema se chama de ator coadjuvante".
          12. Mais adiante: "Sua função é criar condições para que os outros brilhem. É uma função que exige nobreza de sentimentos, essenciais que lhe são a renúncia e o sacrifício".
          13. Não hesito em dizer que concordo com o brilhante jornalista de Veja que, há anos, mantém uma corajosa coluna na última página da revista dos Civitas.
          14. No mesmo artigo, Roberto registra, que nem na Legenda Áurea (tenho um exemplar), livro do século XIII, onde Jacopo de Varazze conta a vida dos santos, São José teve sua biografia publicada.
          15. Por último, lembra que José só começou a ser venerado no século XV, graças às pregações de São Bernardino de Siena.
          Coube ao papa Sisto IV (1471-1484), finalmente, encaixar o santo esposo de Maria Santíssima no calendário romano, reservando-lhe a data de 19 de março.
          16. De um escritor laico, Um certo José é a página mais bonita que já li sobre o injustiçado São José; santo que conheço, desde minha infância quando, de minha primeira catequista, ouvi que ele era o padroeiro do meu Ceará.
          Neste Natal, olhemos também pra ele...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 17/12/2016
Alterado em 20/12/2016


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