Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

             O canalha e o cachorrinho

     1. De algum tempo para cá, no rádio e na televisão, o noticiário policial predomina e se dá excessivo destaque a episódios de extrema e horripilante violência.
     2. Fazer o quê se o mundo está deste jeito? A violência está nos cinco continentes, e, se duvidar, no espaço sideral, também. Diante dessa dura realidade, que faço eu: mudo de canal e troco de emissora, para fugir das más notícias.
     3. A violência praticada contra uma pessoa, adulta ou criança, homem ou mulher, me revolta e me constrange. Fico arrasado.
     4. Minha revolta não é menor quando a vítima é um animal. Nesse particular, sou mesmo um seráfico. Francisco de Assis não maltratava uma formiguinha e batia longos papos com os animais.
     5. Constrangeu-me profundamente o que acabo de ver num desses canais de televisão.
     Um canalha amarrou um cachorrinho no rabo do seu carro e saiu, pelas ruas da sua cidade, velocidade plena, arrastando o indefeso cãozinho. Digo cãozinho porque pareceu-me um cachorro pequeno e pé-duro.
     6. E o mais lamentável: ninguém - e a rua tinha muita gente - socorreu o pobre animal, que latia desesperadamente.
     7. Que Deus me perdoe, mas nunca desejei tanto que o carro do canalha colidisse com o primeiro poste que encontrasse pela frente. Só assim terminaria o suplício do indefeso vira-lata.
     8. Sofri com o que vi. E olhe que não sou um cara ligado em cachorros, embora  todos eles, de raça ou pé-duro, mereçam deste cronista passarinheiro o maior e mais carinhoso respeito.
     9. Arrolaria, se isso fosse possível, claro, como testemunhas, os três cachorros que, em homenagem aos meus filhos, criei, na intimidade de minha casa; na amplitude do meu quintal; na sombra acolhedora do meu jardim.
     10. A fidelidade canina ao seu dono tem sido cantada em prosa e verso. São conhecidas, por exemplo,  as quadrinhas do poeta Belmiro Braga (1872-1937), porque muitas vezes repetidas.
     "Pela estrada da vida subi morros,/ desci ladeiras e, afinal, te digo:/ se entre os amigos encontrei cachorros,/ entre cachorros encontrei-te, amigo!"   ==   "Para insultar alguém, hoje, recorro/ a novos nomes feios, porque vi/ que elogio a quem chamo de cachorro,/ depois que este cachorro conheci."
     11. Olavo Bilac (1865-1918), em crônica publicada no Estado de São Paulo , em novembro de 1897, registra a entrevista de um militar falando sobre a amizade dos cães da histórica Canudos de Antônio Conselheiro (1828-1897), após a guerra que aniquilou o arraial do beato cearense, filho da simpática Quixeramobim.
     12. Em Canudos, diz a entrevista, viviam muitos cachorros. Com o arraial em chamas, esses cães, apavorados, abandonaram as casas que, em brasa, desabavam umas sobre as outras.
     13. Contou o oficial, que os cachorros de Canudos ficaram pelo mato "famintos e aturdidos, vagabundos, chorando os donos ausentes". E que, cessado "o clamor da artilharia", terminado o conflito, eles voltaram à aldeia devassada.
     14. E Bilac transcreve o que o oficial dissera na sua entrevista, ou seja, que muitos desses cachorrinhos pareciam "empenhados em cavar a terra, em descobrir os cadáveres podres, em farejá-los longamente, procurando descobrir os donos, os antigos companheiros de caçadas..."
     15. Dois livros eu guardo nas minhas estantes contando doces histórias sobre cachorros e seus donos.
     Do escritor Antonio F. Costella, o cão Chiquinho, no livro Patas na Europa
     De Josué Montello (1917-2006), no seu livro O carrasco que era santo,  o cachorro Miudinho.
     16. Nos dois livros, os cachorros, Chiquinho e Miudinho, adorados pelos seus donos e estes por eles, seriam cães sem pedigree. É muito fácil amar um poodle... 

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 02/02/2017
Alterado em 02/02/2017


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