Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

            Marchinha inofensiva

     1. No carnaval de 1932, o folião brasileiro se esbaldou, com justificado prazer, cantando "O Teu Cabelo Não Nega", marcha carnavalesca dos irmãos Valença e do compositor Lamartine Babo (1904-1963), o saudoso Lalá.
     2. Sob o argumento de que "O Teu Cabelo Não Nega" carrega, nas suas entranhas, uma estrofe ofensiva, uma horda de desocupados quer riscar do mapa da folia a marchinha do Lamartine, já no carnaval de 2017, o que considero um descomunal absurdo.
     3. A estrofe "maldita" é esta: "O teu cabelo não nega, mulata/ Porque és mulata na cor/ Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu amor".
     4. Não vi (eu e a torcida do Flamengo), nada, absolutamente nada, de ofensivo nessa estrofe; e muito menos nos versos seguintes da marchinha do Lalá que há 85 anos incendeia as festa do rei Momo.
     5. Na crônica "O Carnaval dos Ofendidos", que publicou na Folha de São Paulo em 3.2.17, o jornalista Ruy Castro posicionou-se, de forma elegante, contrário à infeliz ideia de banir a marchinha "O Teu Cabelo Não Nega" do nosso carnaval.
     6. Como conhecedor profundo da história da música carnavalesca, o autor de "Saudades do Século 20" deixa claro não ver razões para a proibição pretendida, como eu disse acima, menos cavalheiro, por uma horda de complexados...
     7. Para Ruy Castro, "Os velhos Carnavais viviam dessa glorificação dos tipos nacionais". E, claramente: "Há décadas o país canta com amor essas marchinhas e nunca se viu uma morena, loura ou mulata se ofender".
     8. E, digo eu, nem carecas, gagos, gays e lésbicas, que figuraram em belas marchinhas de velhos carnavais, vi se maldizendo ou se queixando da sorte.
     9. Ruy Castro, in "O Carnaval dos Ofendidos", lembra inesquecíveis marchinhas, robustecendo seu ponto de vista em defesa da marchinha do Lalá: 
    - "Linda morena, morena/ Morena que me faz penar/A lua cheia que tanto brilha/ Não brilha tanto quanto o teu olhar" (1932);
     - "Lourinha, lourinha/ Dos olhos claros de cristal/Desta vez, em vez da moreninha/ Serás rainha do meu carnaval", (1933); 
     - "Salve a mulata/ Cor do café, a nossa grande produção" (1939).
     10. Portanto, afaste-se, de vez,  a criminosa ideia de eliminar do nosso carnaval uma de suas mais bonitas músicas, "Teu Cabelo Não Nega", que, como disse acima, há mais de oito décadas, quando lhe dão espaço, toca fogo nos salões mominos.
     11. Melhor a marchinha do Lalá do que um negócio que apareceu por aí, chamado de "samba-reggae", com este nome: "Ô me libera, Nega"; e - pasmem! - segundo leio, fadado a ser o grande sucesso do carnaval baiano. Olha, depois do Lepo-lepo, tudo pode acontecer no pobre carnaval de Salvador...
     12. Antes que alguém peça a proibição da marchinha "Cabeleira do Zezé", muito cantada nos carnavais, desde 1964, deixe-me contar um pouco da história dessa alegre composição de João Roberto Kelly e Roberto Faissal, interpretada, brilhantemente pelo saudoso Jorge Goulart.
     13. Faço-o com base no que li em outra bonita crônica do Ruy Castro: "Sem Censura", publicada, na Folha de São Paulo de 1.2.2016.
     14. "Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é?/ Será que ele é?" Com essa indagação, houve quem dissesse que o João Roberto Kelly "teria se inspirado num homossexual" para compor essa machinha. Nada disso; mente quem faz esta afirmação.
     15. Ruy Castro esclarece, como mostro, a seguir. Ipsis litteris, ou seja, como ele escreveu: "O Zé da marchinha de Kelly existia e se chamava, não por coincidência, Zezé.
     Era um garçom de um restaurante do Leme a que Kelly ia quase todo dia"
     Prossegue, dizendo que Zezé "foi um dos primeiros cariocas a adotar a cabeleira dos Beatles, o que o tornava disputado pela mulheres - e ele não recusava serviço".
     16. Prossegue Ruy: "Era um militantemente implacável que a graça, na marchinha, estava em insinuar exatamente o contrário do que ele era".  E que Zezé nunca se incomodou, nem quando foi chamado de  "Bicha" num famoso programa de televisão.
     E conclui: "Não se sabe de, um dia, um gay ter mandado parar o baile".
     17.  Depois deste protesto e destes esclarecimentos sobre o Zezé, resta-me desejar aos foliões um excelente carnaval.
     Para descontrair, permitam-me transcrever o que, certa feita, Graciliano Ramos disse sobre o carnaval:  - "Se a única coisa de que o homem terá certeza é a morte, a única certeza do brasileiro é o carnaval do próximo ano". É o que Nelson Rodrigues chamava de "verdade eterna".


 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 06/02/2017
Alterado em 13/02/2017


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