Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

          O padroeiro injustiçado

     1. Em tempo de Quaresma, manda o bom-senso que se escreva, na medida do possível, sobre assuntos religiosos, ou seja, ligados à Igreja.
     2. Ao longo da minha militância católica, tenho mostrado que absorvo com mais facilidade o Evangelho de Lucas (o meu predileto) do que o Evangelho dos outros dois sinóticos, Mateus, Marcus, e algumas páginas de João. 
     3. O Apocalipse de São João, por exemplo, não me arrisco a comentá-lo e muito menos interpretá-lo. Considero-o muito confuso.
     Alguém me disse que biblistas dedicados e competentes são acometidos de violenta urticária quando instados a comentar esse livro do autor do Quarto Evangelho. 
     4. Quando estive, com Ivone, na ilha de Patmos, visitei a famosa gruta onde, segundo a tradição, São João teria captado as revelações que o levaram a escrever o  Apocalipse.  João esteve exilado nessa ilha grega em 90 d.C., no governo do imperador romano Domiciano. 
     Durante a visita, cheguei a pedir a São João, o Teólogo (assim ele é chamado pela Igreja Ortodoxa) que me ensinasse pelo menos a ler o seu complicado, polêmico e misterioso livro, o último da Bíblia Sagrada. Até agora, não obtive resposta.
     5. Por tudo isso, precavido, evito andar por aí interpretando o Apocalipse: humildemente me reconheço sem a mínima condição de fazê-lo.
     Limito-me a ler e ouvir o que se escreve e o que se diz sobre o Apocalipse, nem sempre concordando com os comentários que saem em jornais e revistas; ou vêm dos púlpitos...
     6. Disse há pouco, que em tempo de Quaresma, deve-se escrever sobre temas religiosos. 
     Contudo, não foi nos Evangelhos e nem, digamos, em alguma das doze epístolas de São Paulo (meu apóstolo preferido) que encontrei inspiração para escrever esta crônica.
     7. Ou no Cântico dos Cânticos , que tem versículos lindos como este: "Os teus lábios, ó esposa, são como favo, que destila mel;/ mel e leite estão sobre tua língua,/ e o odor dos teus vestidos é como o odor do incenso" (Cânt 4,11). Parênteses: vejam, que, naquele tempo já se admitia o gostoso que é o beijo na boca...
     8. Não. O livro Crônicas Pitorescas da História do Brasil, do jornalista gaúcho Eloy Terra, tirou-me do caminho dos livros santos. Uma de suas crônicas me chamou a atenção, reveladora da ingratidão à qual nem os santos mais queridos escapam! Com certeza,  meu amigo leitor gostará de conhecê-la.  
     9. A crônica a que me refiro é sobre São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro.      Sobre esse santo, uma palavrinha. Sebastião nasceu na cidade francesa de Narbonne, em 256 d.C. Morreu em Roma, perseguido pelo imperador Diocleciano, em 286 d.C.
     É um santo muito mais popular do que a gente pensa. Centenas de cidades brasileiras o têm como seu orago.
     10. Segundo Eloy Terra, tudo teria acontecido em 1710. Naquele ano, o povo do Rio de Janeiro enfrentava bravamente, mas numa luta desigual, invasores franceses sob o comando do almirante Duclerc.
     Sentindo que estava perdendo a "guerra", a população apelou para o santo protetor da cidade, cuja festa litúrgica é no dia 20 de janeiro. O padroeiro não teria dado a mínima, levando alguns de seus devotos a hostilizá-lo. Não esquecer que Sebastião era francês!
     11. No dia 19 de setembro, dia de São Januário - Eloy prossegue contando -, como se um milagre estivesse acontecendo, começou a faltar munição aos comandados do almirante Duclerc. Os invasores recuaram e voltaram, acovardados, pros seus navios.
     12. E diz, na sua crônica, o jornalista gaúcho que "o povo logo fez a ligação do nome do santo com o nome da cidade: Janeiro/Januário".
     Assim, Januário e não Sebastião passou a ser o orago da Cidade Maravilhosa, admitiram os cariocas, prestando-lhe as devidas homenagens. 
     13. Concluindo,  escreve Eloy Terra "... com o passar do tempo, o episódio da invasão foi sendo esquecido; São Januário virou um bairro do Rio de Janeiro e São Sebastião voltou ao seu posto de padroeiro da cidade".
     14. Hoje, digo eu, São Januário é uma das ruas mais importante do mundo.      Querem saber por quê? Porque na Rua São Januário estão a sede e o estádio do Clube Regatas Vasco da Gama, o time do coração deste cronista, vascaíno desde o  descobrimento do Brasil.   
     
       


 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 11/03/2017
Alterado em 14/03/2017


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