Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                    Azulejos abandonados

     1. Conheço o Convento de São Francisco, no Centro Histórico de Salvador, desde 1957; e com ele me identifico, pois, durante seis anos, fui seminarista franciscano.
     2. Também conhecido como o convento do Terreiro de Jesus, em uma de suas celas, austera e silenciosa, morei três meses, gentileza do padre guardião, um frade alemão, cujo nome, não me recordo. Frei, frei... Não, não estou lembrado.
     3. Magnânimo, o frade guardião, liderando uma grande e culta comunidade, permitiu que o ex-aluno seráfico, recém-chegado do Ceará, fosse acolhido numa modesta cela fradesca do seu convento, e nela permanecesse, até que estivesse adaptado à realidade da capital baiana. Também por isso, aos franciscanos eu sou eternamente grato.
     4. Sempre que posso, volto ao convento. Ainda tenho lá dois frades, Frei Arnaldo Motta e Sá e Frei Albano Pereira, que me fazem sala.
     Ambos foram meus colegas em Ipuarana, o seminário maior, na cidade de Lagoa Seca, a dois passos de Campina Grande, Paraíba, no início dos anos 1950.
     5. Posso dizer - e o faço com imenso prazer - que conheço as entranhas do Convento do Terreiro de Jesus e a lindíssima igreja de São Francisco de Assis, toda de ouro, a ele colada.
     Abro um parêntese para dizer que, nesse deslumbrante templo seráfico, no dia 19 de junho de 1965, eu casei; e com a Ivone vivo até hoje.
     6. O principal claustro do convento tem suas paredes decoradas por milhares de azulejos, centenários, vindos de Portugal, contando belas histórias e evangelizando. É um espetáculo!  Difícil, porém,  de ser descrito numa incipiente crônica; como essa que o leitor tem diante de seus olhos.
     7. Esses azulejos estão correndo o sério risco de desaparecerem. Implacável, o tempo os persegue. Para sustar a ação demolidora dos anos, alguém tem que lhes dá  imediata manutenção. O pessoal do Iphan? Os frades do convento fazem o que podem para salvá-los. Vejo isso.
     8. Ao lado da igreja e do convento, outro espetáculo de beleza: é a igreja da Ordem Terceira de São Francisco, inaugurada em 1703 e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1939. 
     Com um valiosíssimo acervo, no mesmo local, está o Museu da Ordem.
     9. Nesse museu, hoje quase esquecido, o visitante pode ver de perto, por exemplo, um aparelho telefônico que teria sido dado de presente a Dom Pedro II por ninguém mais do que Alexander Graham Bell (1847-1922) o inventor do telefone.
     10. Pois bem, os azulejos da igreja da Ordem Terceira de São Francisco também podem desaparecer, corroídos pela ação do tempo. A exemplo, sim, do que está acontecendo com os azulejos do convento. 
     11. Duas excelentes reportagens,  uma da "Folha de São Paulo" e a outra do jornal baiano "Correio", publicadas esta semana quase ao mesmo tempo, denunciam o adiantado estado de deterioração  dos azulejos, didáticos e preciosos, da igreja da Ordem Terceira, que Portugal trouxe para Salvador, no ano de 1753.
     12. São 19 painéis de azulejo retratando  "o cortejo do casamento de Dom José I com Mariana Vitória de Bourbon e Farnésio", em 1729.
      Dom José I, o Reformador, foi rei de Portugal de 1750 a 1777, quando morreu na agradável  e linda cidade lusitana de Sintra.  Quem não conhece Sintra?
     13. Os azulejos portugueses que enriquecem e engalanam todas as igrejas de Salvador, contando histórias centenárias, precisam receber cuidadosa e permanente assistência. Senão, nem os nossos netos terão a oportunidade (a felicidade?) de,  visitando-os, adquirirem cultura; ou consolidá-la, se for o caso.
     14. A igreja da Ordem Terceira, o convento e a igreja de São Francisco enchem, sem sombra de dúvida, de incalculável encanto o Centro Histórico de Salvador.
     As duas igrejas franciscanas e o convento seráfico do Terreiro de Jesus são o que de mais belo e proveitoso os baianos e os turistas encontrarão no trepidante e badalado Pelô de muitas atrações; algumas, inexpressivas, outras, insignificantes, e poucas, aproveitáveis...

 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 08/07/2017
Alterado em 09/07/2017


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras