Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                Como um gato salvou
                Humberto de Campos

     1. Mais uma crônica do escritor Ruy Castro, publicada na "Folha de São Paulo", me põe a escrever sobre fatos e causos que imaginava perdidos nas dobras do tempo.
     2. O Ruy, primeiro se declara um "Contumaz frequentador de sebos de livros". Como ele, confesso, também costumo visitar os sebos que ainda existem em Salvador. 
     3. Os sebos, para os que não sabem, guardam, para revenda, livros preciosíssimos. Livros rejeitados por seus antigos donos e outros esquecidos por nossas Editoras, apesar de preciosos.
     4. Na sua crônica, o autor de A Noite do Meu Bem ressalta a importância da presença de gatos nos sebos. E diz: "Não apenas os gatos ficam bem entre os livros, como são seus guardiões nas longas noites em que os sebos ficam fechados e sob sua pior ameaça - os ratos".
     5. Em seguida, recorda o gato Zulu, da Dantes, na rua Dias Ferreira, no Leblon, chamando-o de seu "gato preferido". Graças a ele, "tenho hoje a coleção completa de Arsène Lupin, da Vecchi", escreveu Ruy.
     6. Atenção! Não adianta procurar o sebo Dantes, na Dias Ferreira, pois, segundo Ruy Castro, ela "não existe mais e Zulu, temo eu, também não".  Portanto, estando no Leblon, vá à Livraria Argumento, compre um bom livro e tome um excelente café. Esqueça a Dantes e o gato Zulu.
     7. Conforme eu disse, a crônica do autor de O Anjo Pornográfico, intitulada Apetite esvoaçante, trouxe-me de volta um fato que eu dava como definitivamente sepultado no mausoléu do passado, o meu, posto que, ocorrido há muitos e muitos anos.
     8. Me fez recordar, que, graças a um gato arisco e sorrateiro, que não era meu, mas o xodó da minha vizinha, não perdi a coleção, quase completa, de Humberto de Campos (1886-1934) que adquirira, com grande esforço, em tempos de vacas magras... Idos de 1961!
     9. Descobri a tempo que um roedor atrevido e ladino ameaçava os livros do autor de Sombras que sofrem, um de meus cronistas preferidos. E que só não os havia danificado porque temia ser agarrado pelo gato de dona Dalva, que atendia pelo nome de Kalunga.
     10. A coleção do Humberto, com alguns livros da série Conselheiro X.X. - um tesouro esquecido pelas editoras - eu guardara num depósito, no fundo do meu quintal, enquanto comprava estantes novas para recebê-la. O tempo foi passando e o roedor fazendo suas investidas.
     11. Tudo isso aconteceu, faz muitos anos! Minha casa e a casa da vizinham foram demolidas. No terreno, construíram um edifício com alguns andares. Da minha velha casa, nada restou. As máquinas mataram, sem dó, o frondoso flamboayant que a enfeitava todas as horas...
     12. Soube depois, que o Kalunga tivera um fim trágico. Morrera atropelado ao atravessar a rua, no seu pisar macio, não muito comum aos felinos. Fosse o Kalunga do tempo do Humberto de Campos, com certeza ganharia, do saudoso cronista maranhense, uma delicada crônica...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 08/08/2017
Alterado em 09/08/2017


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