Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

           Dois apóstolos da vacinação

     1. Acompanho, com preocupação máxima, o noticiário sobre a volta da febre amarela. Sim, senhor, ela voltou, devastadora, em pleno século 21. Eu, heim?
       2. Tem muita gente morrendo; macaquinhos e saguins, também. E por falar em saguins, nas amendoeiras frondosas de minha rua, dezenas desses bichinhos brincam, descontraídos, todos os dias, como crianças nos parques infantis. São buliçosos, mas inofensivos. São lindos!
       3. Os macacos estão sendo mortos. Acusam-nos de serem transmissores da maldita febre, o que não é verdade. Muito pelo contrário: eles avisam onde mora o perigo...  
       4. Ao invés de transmissores, eles são vítimas da funesta febre. E seus parentes - os homens e as mulheres -, morrem porque, picados pelo mosquito malígno, não estavam protegidos pela santa vacina.
       5.  Vejo, com satisfação, que a população, acolhendo o apelo das autoridades, vem comparecendo expontâneamente - redigo: expontâneamente - aos postos de vacinação, querendo mandar a febre amarela pros infernos. Plaudite! com diziam os romanos, ou seja, Parabéns!
       6. Diferente dos tempos do Dr. Oswaldo Cruz (1872-1917), início do século 20. O Presidente Rodrigues Alves usou da força para implantar o projeto de vacinação em massa contra e varíola e febre amarela idealizado pelo sanitarista Oswaldo Cruz. O povo não acreditava na eficácia da vacina. 
      7. Dr. Oswaldo, com a ajuda do governo, conforme prometera, em 1907, erradicou a doença, oficialmente, da cidade do Rio de Janeiro. Alcançou prestígio internacional. Hoje, tem a sua "figura heroicizada".
         8. Quando, nos idos de 1952, cheguei em Fortaleza, recém-saído do seminário seráfico, namorei uma garota que morava num bairro chamado RodolfoTeófilo.
          9. Sem carro, o amor por ela me fazia pegar um ônibus, que me deixava na janela de sua casa. Era uma viagem; levando-se em conta que eu morava na Rua Dona Tereza, chegando na Praça São Sebastião. Quem conhece Fortaleza sabe muito bem disso.
          10. De repente essa menina me perguntou quem era esse tal de RodolfoTeófilo. Assim mesmo: esse tal de Rodolfo Teófilo. Eu nunca houvera me preocupado em conhecer a história desse senhor. Para responder à jovem, mergulhei, de cabeça, na biografia do doutor Rodolfo Marcos Teófilo.
          11. Gravei dados importantes da vida do doutor Rodolfo e os transmiti, num desses aconchegantes papos, à querida menina. Ela me agradeceu com um demorado beijo, nas proximidades da boca! Era assim, naquele tempo. 
          12. Disse-lhe que Rodolfo Teófilo fora poeta, escritor, contista e farmaceutico. Que nascera em Salvador, no dia 6 de maio de 1853 e falecera no dia 2 de julho de 1932, em Fortaleza.
          13. Que ele comandara, sozinho, no início do século 20, uma campanha pela vacinação contra a varíola que se alastrara na capital cearense. Como um sacerdote caridoso e devotado, ele visitava os bairros humildes de Fortaleza, montando seu cavalinho. Aplicava a vacina por ele fabricada.
          14. Que sua campanha não recebera nenhum apoio do governo do Estado do Ceará. Muito pelo contrário, fora perseguido pelo então governador, Dr. Antônio Pinto Nogueira Accioli (1840-1921); que, perseguindo-o, o demitiu do serviço público.
          15. Não há como negar a importância do Dr. Oswaldo Cruz. Todas as homenagens lhe devem ser dirigidas. E é justo que a sua figura, de emérito sanitarista, seja relembrada nos dias em que a febre amarela volta a rondar os lares brasileiros.
     16. Elogiando-o, nem por isso se deve esquecer o farmaceutico Rodolfo Teófilo. Os dois são apóstolos da vacinação. A eles, muito os brasileiros devem.
     17. Foi mais ou menos o que o escritor cearense Lira Neto quis dizer no seu belo artigo - "Vacina e esquecimento" - em boa hora publicado no jornal a "Folha de São Paulo", do dia 18 de fevereiro de 2018. 
          18.Vejam um pouco do texto do escritor Lira Neto: "Oswaldo Cruz é festejado nas páginas dos livros escolares, já foi tema de filme, teve a efígie cunhada em moedas e o rosto estampado em cédulas oficiais... Sobre Rodolfo Téofilo, em contra partida, fala-se muito pouco".
          19. E prossegue: "A lembrança de Rodolfo Teófilo tem muito mais a nos dizer, no presente. Ao contrário de Oswaldo Cruz, ele não dispunha dos mecanismos oficiais coercitivos, incluindo as forças policiais, para impor suas ideias à população".
          20. E conclue: "Em vez da repressão, (Teófilo) recorreu à persuasão. Fabricava as próprias doses de vacina antivariólica em um laboratório caseiro e de início, percorria os subúrbios sozinho, a cavalo, batendo de porta em porta, tentando convencer os moradores a receberem a imunização". 
          21. Antes do ponto final, deixem-me homenagear os queridos e desaparecidos mata-mosquitos. Quem, mais antigo, não se lembra da presença deles em nossas casas?
          22. Chegavam, hateavam sua bandeirinha amarela na nossa porta, às vezes eram hostilizados, mas cumpriam sua missão, ou seja, a de matar os mosquitos, antes que eles nos fizessem algum mal. Ah, os mata-mosquitos,  nunca devem ser esquecidos...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 24/02/2018
Alterado em 25/02/2018


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