Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

               Tuberculose, poesia e música

     1. Na histórica trajetória da tuberculose, houve um tempo em que essa ingrata doença "era como a epidemia da Aids, na década de 1980". Apavorava a todos; a notícia reinante era a de que se tratava de um mal contagioso e incurável.
     2. Bastava a leve suspeita da presença do bacilo de Koch em sua vida para que o cidadão fosse afastado, sumariamente, do convívio social; e o mais cruel, do seio de sua família. Não estou exagerando.
     3.Tossiu, escarrou, e logo todo mundo se recusava a apertar a mão do pobre coitado que podia estar, simplesmente, engasgado com sua própria saliva. Em alguns casos, era logo encaminhado aos sombrios e afastados Sanatórios.  
     4. Em torno da tuberculose circulavam as mais ridículas e contraditórias histórias sobre como a moléstia era adquirida, tratada e transmitida. Todas, ou quase todas, tempos depois, desmentidas pelo doutor Alexander Fleming.
     5. Lá pelos anos 1940, na minha cidade, no interior do Ceará, dizia-se, abertamente, que quem tocava qualquer instrumento de sopro morreria tuberculoso.
     O instrumento arrebentava com os pulmões do músico, pelo esforço que fazia para alcançar a perfeição da partitura. Não era verdade, como se viu depois.

     6. Meu pai, por exemplo, tocou, anos a fio, um simpátco clarineta, e não morreu tuberculoso. Morreu de cancer, décadas depois de abandonar seu sonoroso instrumento, que muito alegrou sua juventude e acalentou as madrugadas de Maria Luiza, minha mãe, em inesquecíveis serestas...
     7. Já rapazinho, inventei de tocar flauta. Minha mãe, com sabedoria e zelo, vetou minha pretensão, no momento em que eu começava a tirar os primeiros sons de uma valsinha de Benedito Lacerda, flautista aplaudido, só comparado a Altamiro Carrilho. Desisti da música.      
     8. Menino ainda, escrevi alguns versos. Avisei em casa que pretendia ser poeta. Foi um rebuliço. Meus país tinham ouvido falar que todo poeta morria cedo e tuberculoso. E que a tuberculose era, por isso, chamada de a "doença dos poetas".      
     9. Para satisfação dos velhos, não fui além de dois sonetos, que, de repente, porque ruins demais, sumiram. Procurei-os em todos os lugares; até onde as traças costumam fazer ninhos. E nada.  Desisti de fazer versos e meus pais agradeceram a Deus pela minha decisão.      
     10. Eles tinham razão em pensar assim. Veja só.      Na minha cidade havia dois excelentes poetas que frequentavam minha casa. Bebiam de adormecer nas sargetas. Mas, quanto mais bebiam, mais sonetos escreviam, cada qual o mais lindo.
     11. De repente correu a notícia de que os dois vates - Zé Carmelo e Jacinto -  estavam tuberculosos. Passaram a ser evitados pela sociedade;pelos amigos; e até pelo vigário da paróquia e pelo pastor protestante, que se dizia um sujeito caridoso.
     12.Os dois poetas morreram - um, logo depois o outro -,  bebendo, versejando e tuberculosos. Poucos foram aos seus velórios; pouca gente acompanhou  seus cadáveres até o cemitério!
     13. Contentei-me, ao logo da vida, em ler alguns dos meus poetas prediletos. Alvares Azevedo(1831-1852); Gonçalves Dias(1823-1864); Casimiro de Abreu(1839-1860); Augusto dos Anjos(1884-1914) e Antônio Frederico de Castro Alves(1847-1871), o maior de todos, concordando com o escritor Afrânio Peixoto, baiano como o vate de "Espumas Flutuantes". 
     14. Um detalhe, para terminar: todos esses poetas morreram tu-ber-cu-lo-sos. E, não sei como, meus pais sabiam disso.
     15. Vez em quando, me pergunto: será que a tuberculose, que tanto apavorava meus falecidos genitores, não me deixou ser músico nem poeta? Só Deus sabe...
     
16. 
Resta-me morrer como um pífio cronista...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 22/01/2019
Alterado em 07/02/2019


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