Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

             O balão em duas canções

     1. Quando eu disse que inda me lembrava do meu último balão, ninguém quis acreditar. Houve quem achasse que eu estava delirando ou dominado por exagerado saudosismo. Nem uma coisa, nem outra. "O que a memória ama fica eterno", disse Adélia Prado.
     
2. Declarei, em algumas de minhas crônicas juninas, que amo os balões. Ah, mas eles provocam irreparáveis estragos. É verdade. Nem por isso eles deixam de ser encantadores. O balão é o mais legítimo postal ou símbolo, como queiram, da festa do Precursor. 
     
3. Veio a Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1968, proibindo soltar balões; Artigo 42. E atenção, senhores baloeiros: quem desrespeitar esse dispositivo legal será detido ou pagará multa. Olha, a lei proibe soltar balão mas não impede que eu o admire, tá?
     
4. Muito bem. No dia 2 de maio de 1933, dizem os pesquisadores, o Brasil ouviu sua primeira canção joanina. O nome da canção? "Cai,Cai,Balão". É sucesso até hoje, volvidos mais de 86 anos do seu lançamento. 
     
5. Faço justiça lembrando, aqui, seu compositor, que o tempo parece esconder: José de Assis Valente. Ele, autor da canção natalina "Boas Festas", muito conhecida, nasceu na cidade de Santo Amaro, no recôncavo baiano, terra de Caetano e Betânia, em 19 de março de 1911. Afogado em dívidas, Assis Valente, em 6 de março de 1958, se matou...
     
6. Para este cronista, a letra de "Cai,Cai,Balão" não está entre as melhores deixadas por Valente em outras canções de sua autoria. É pobre e modestíssima. Sua música, ao contrário, é bonita.      
     Salvou "Cai,Cai,Balão" a interpretação que lhe deu o maior cantor naquele distante 1933: Francisco Alves, em dueto com Aurora Miranda, irmã da Carmem.
     
7. Boa ou má, "Cai,Cai,Balão" , no mês de junho, é fartamente tocada, tanto nas emissoras das grandes cidades, como nos forrós do mais longínquo interior. No Nordeste, principalmente, onde a louvação a São Pedro e a São João não tem hora pra começar e muito menos pra terminar. 
     
8. A canção joanina que mexe mais com este escriba é "Olha pro céu, meu amor". Seu compositor e intérprete é Luís Gonzaga, que dispensa apresentação.      Para o forrozeiro que aqui lhes fala, entre as músicas que alegram os festejos dos santos Pedro e João, "Olha pro céu, meu amor" é a mais bonita. Não quero dizer que inexistam outras tão bonitas quanto. Apenas quero reafirmar minha predileção por ela. 
     
9. "Olha pro céu, meu amor/ Vê como ele está lindo/      Olha praquele balão multicor/ Como no céu vai sumindo. == Foi numa noite igual a esta/ Que tu me deste o coração/ O céu estava assim em festa/ Pois era noite de São João == Havia balões no ar/ Xote e baião no salão/ E no terreiro o teu olhar/ Que incendiou meu coração". Bravo!
     
10. Oh! os meus balões! Que saudade! Silenciosos mensageiros... Muitas vezes lhes pedi que levassem beijos e mais beijos pros meu amores... É certo que nunca voltavam pra me dizer se os havia entregue, como eu pedira... Desapareciam, simplesmente, desapareciam, entre as estrelas...
     
11. Não é para aplaudir baloeiros infratores, mas, "nas noites frias tão frias de junho" fico de olho no céu a espera de um balão forasteiro e corajoso.
     Pois não é que, noite dessas, vagou pelo meu céu, que avisto da minha janela, um balão multicor. Confiei-lhe alguns segredos enquanto ele desaparecia n'alguma esquina da Via Láctea...   
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 08/06/2019
Alterado em 08/06/2019


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