Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                          Psicografada

                               Mais rico é aquele que tem menos                                    necessidade.
                                                                    Allan Kardec

     
1. Comprei "Parnaso de Além-Túmulo", o primeiro livro psicografado por Francisco Cândido Xavier (1910-2002). Esse livro reúne "poesias mediúnicas".
     Tenho, agora, do amado médium mineiro, além de "Parnaso", três livros ditados pelo Espírito Humberto de Campos (1886-1934), sob o pseudônimo de Irmão X. Humberto é um dos meus escritores prediletos.
     
2. Dia desses, perguntaram-me se eu, reconhecido católico praticante, egresso dos melhores seminários franciscanos, havia, afinal me tornado um seguidor de Allan Kardec. Disse que não.
     Confessei, porém, o meu vibrante interesse pelos livros escritos por nossos médiuns. Talvez um pouco decepcionado com o que vem sendo escrito no mundo dos vivos.
     
3. Os três livros do Irmão X, excelentes, por sinal: "Pontos e Contos", "Boa Nova" e "Crônicas de Além-túmulo". Quem conhece a obra do autor de "Sombras que sofrem" - e eu posso dizer que conheço -, facilmente descobre, nesses três livros psicografados, o estilo doce de Humberto.
     
4. No "Parnaso", Chico Xavier trouxe para o mundo dos vivos, psicografando-os, versos primorosos de bons e conhecidos vates. Cito alguns: Artur Azevedo, Augusto dos Anjos, Belmiro Braga, Cruz e Souza, Fagundes Varela, Castro Alves e Casimiro de Abreu, este entre os poetas que mais gosto. 
     
5. Diria que meus primeiros contatos com a poesia se deram através de Casimiro de Abreu (1839-1860). Ainda criança, filiei-me ao Grêmio Literário de minha modesta escola pública. Ela funcionava lá nos confins do meu Estado, o Ceará.
     De repente, fui escalado pela professora Mariinha, orientadora do Grêmio, para, num evento que não me recordo qual, recitar, de cor, "Meus oito anos", de Casimiro de Abreu. 
     
6. Abro um parêntese para dizer: Tempos bons, aqueles! Eu chava, como no poema de Casimiro, que o céu era "sempre lindo"; andava com os "Pés descalços e braços nus"; "Adormecia sorrindo"; "E despertava a cantar". Os grilos não se aninhavam na minha cuca, chacoalhando meu dia a dia...
     
7. No "Parnaso", Casimiro de Abreu teve psicografado "Lembranças", um belíssimo poema, pra ser lido várias vezes, tamanha é a sua doçura. Porque muito longo, pensei em não transcrevê-lo nesta crônica. Mas, diante de sua beleza, decidi por trazê-lo ate aqui. 
     
8.  -   " LEMBRANÇAS - No sacrário das lembranças;/ Revejo-te, Trigueirinha,/ De negras e longas tranças,/ Moreninha./ Teus lindos pés descalçados,/ Pisando de manhãzinha/ A verde relva dos prados, Moreninha.  ==  Os primorosos cabelos/ Enfeitados, à tardinha,/ De miosotes singelos,/ Moreninha. ==  De olhar sedutor e insonte,/ Quando o teu passo ia e vinha/ Em busca da água da fonte, /Moreninha.  ==  Teu vulto de camponesa/ Era o porte de rainha,/ Rainha da Natureza,/ Moreninha.  ==  Inda ouço os sons primeiros/ Da tua voz na modinha/ Modulada nos terreiros,/ Moreninha.  ==  Lavando a roupa às braçadas,/ Nos fios d'água fresquinha,/ Sob as mangueiras copadas,/ Moreninha.  ==  Os teus risos adorados, / Desferidos à noitinha,/ Nos bandos de namorados, / Moreninha.  ==  A tua oração ditosa,/ Nas missas da capelinha,/ Tão faceira! tão formosa!/ Moreninha./ A placidez do teu rosto/ Com teus modos de avezinha,/ Fitando a luz do sol posto,/ Moreninha.  ==  O teu samburá de flores/ Que levavas à igrejinha,/ Enchendo a nave de odores,/ Moreninha.  ==  O vestido de chita,/ De rosas estampadinha,/ Fazendo-te mais bonita,/ Moreninha.  ==  O nosso idílio encantado,/ Quando te achavas sozinha,/ Sob o luar prateado,/ Moreninha.  ==  Que terna recordação/ De minh'alma se avizinha!/ De saudade, de paixão,/ Moreninha.  ==  Ai! Ai! meu Deus, quem me dera/ Rever-te, doce rainha,/ Rainha da Primavera,/ MORENINHA".
     
9. Não fosse Chico Xavier, o médium querido, esse bonito poema do Casimiro, o Poeta da Saudade, jamais chegaria até nós. "Lembranças", com a ternura explodindo em cada verso, continuaria vagando no mundo dos mortos. E eu pergunto: quem na vida não teve ou não tem sua Moreninha? E até a cantou em prosa e verso...        
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 18/06/2019
Alterado em 18/06/2019


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