Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                              A bailarina
                  e o dia da mulher


   Fui instado a justificar por que não havia escrito uma crônica para a mulher, no  8 de março, o seu dia. Amigas que me leem acharam que eu devia ter escrito "nem que fosse meia página".
   Disse-lhes que não o fizera porque me faltava talento para tanto. Adiantando, em seguida, que só os poetas sabem falar, com maestria, sobre as mulheres:  as suas; as dos outros, e as de ninguém.
   Refutaram, com veemência, a minha assertiva.
   E ainda lembraram, que, brilhando por esse mundo afora, existem inolvidáveis prosas enaltecendo o valor, o charme, a sedução e a dignidade da mulher.
   Exemplificando, apontaram as crônicas do Artur da Távola, em A Mulher é Amor, livro que conheço, página por página e que deve ser lido dezenas de vezes.
   O certo é que, apesar do meu solene blábláblá, não consegui convencê-las da minha total incapacidade de escrever um só parágrafo sobre a alma feminina. Nem sobre o copo? Houve quem perguntasse...
   Até lhes propus recitar poemas do apaixonado Castro Alves. 
    Podia ser, por exemplo, aquele em que o vate baiano, a certa altura, diz pra sua amada: " Não sabes, criança? Sou louco de amores.../ Prendi meus afetos, formosa Pepita.../ Mas onde? No tempo, no espaço nas névoas/ Não rias, prendi-me/ Num laço de fita."
    Ou homenagear a mulher, transcrevendo versos da incomparável Cora Coralina, poetiza com cadeira cativa na minha mesinha de cabeceira, já transbordando de livros.
   Mas elas, inconformadas (!), queriam porque queriam que eu escrevesse sobre a mulher.
   - "Se preferir, sobre uma mulher que te deixou saudades", disse uma delas.
    Fui, então, buscar na minha lembrança mais remota o rostinho estonteante de Leninha, uma doce e inocente bailarina. Volvidos tantos anos, e ainda não consegui esquecê-la completamente.  
    Recordando-a, estaria homenageando a mulher,  e, ao mesmo tempo, satisfazendo, embora palidamente, o desejo de minhas sôfregas e inconformadas amiguinhas. Foi o que imaginei.

    Fui um dedicado freqüentador  dos circos de lona. Não perdia os espetáculos do Nerino, do Garcia, e de outros circos menos badalados. Instalava-se um picadeiro, e lá estava eu batendo palmas pros palhaços. Pena que os bons - eu disse os bons - circos populares, incluindo os aqui citados, tenham desaparecido. 
    Está por aí o Soleil. Muito caro, e não sei se no seu elenco brincam bons palhaços. Os circos valem, principalmente, pelos seus palhaços.
    Fazer rir, não é fácil.  Se, naqueles tempos, já era difícil arrancar sorrisos, nos nossos dias, só um extraordinário palhaço será capaz de transformar as "lágrimas" do "respeitável público" em  gargalhadas. 
    Pois bem. Foi num circo mambembe  que conheci Leninha. Do nordeste, pequenina, tez morena, pernas provocantes, coxas suplicantes, seios pequenos, mas bem visíveis, olhos redondos, pretos, faiscantes e sedutores, Leninha era assim...
    Apaixonei-me por ela... Nada a estranhar.
    Diz Artur da Távola, em uma de suas belas crônicas, que "a mulher vive para seduzir mesmo quando não o faça conscientemente. Faz parte de sua profunda constituição biológica".
    Leninha não sabia dessa "louca paixão"; nem da existência deste romântico cronista. Como, então, abordá-la? Essa preocupação me roubou algumas horas de sono. Incrível!
    Nesse tempo, trabalhando em um jornal de Fortaleza, resolvi conquistá-la, escrevendo uma cuidadosa matéria  sobre a vida de uma bailarina. 
    Foram horas, muitas horas, em cima da minha velha Olivetti, até sair algumas laudas. 
    A matéria, entretanto, para meu desespero, não foi publicada.  Desconfio, ainda hoje, que a redação do jornal descobriu, a tempo, que minha reportagem não passava de uma declaração de amor. E era.
         De Leninha, passados mais de sessent´anos, guardo, apenas, seu retratinho: um recorte do jornal que lhe dava discreta cobertura.
        Busquei-o para rabiscar esta crônica. Ele estava numa pasta já bastante amarelada e cheirando a naftalina, assim identificada: Saudades de Leninha - 8 de março de 1956 - Fortaleza, Ceará.

 


        
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 11/03/2008
Alterado em 02/07/2013


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