Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

          Oh! Como tenho inveja!

     Continuo na agradável companhia de Mario Quintana. Estou terminando de ler Da preguiça como método de trabalho, depois de reler, dele, Velório sem defunto, Porta giratória e Preparativos de viagem.
     Não nego: Oh! como tenho inveja! Inveja de quê? De dizer, como o Quintana, coisas assim, na simplicidade de sua prosa, irônica e profunda:     
     Eternidade - "A eternidade é um relógio sem ponteiros."
     O cão - "Amigo e grande puxa-saco do homem." 
     Horas - "Nunca perguntes que horas são na presença de um defunto." 
     Covardia - "É uma covardia falar mal dos inimigos; só se deve falar mal dos amigos." 
     A lua - "Que haverá com a lua - sempre que a gente a olha - é com o súbito espanto da primeira vez." 
     Estrelas - "No campo as estrelas brilham. Na cidade, as estrelas ardem." 
     Modéstia - "A modéstia é a vaidade escondica atrás da porta."
     Passado - "O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente." 
     Tic-tac - "Esse tic-tax dos relógios é a máquina de costura do Tempo a fabricar mortalhas." 
     Para Catulo da Paixão Cearense, esse Epitáfio - " Catulo não morreu: luarizou-se."
     Poetas - "Eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação." 
     Luar - "O luar é a luz do sol que está sonhado..."

     Ah, são centenas e centenas frases desse iluminado e singular vate gaúcho nascido na cidade de Alegrete e que, no próximo dia 30 de julho, se estivesse vivo completaria 97 anos.
     Minha homenagem. Faço-o, transcrevendo este seu pensamento sobre o poeta e o poema que encontrei nas páginas de Da preguiça como método de trabalho.
     " 
O apanhador de poemas - Um poema sempre me pareceu algo assim como um pássaro engaiolado... E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um cuidado infinito.
     Um poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito. Não, o grito é o que mais o espanta. Um poema,  é preciso  esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato.
     É preciso que lhe armemos ciladas: com rimas, que são o seu alpiste; há poemas que só se deixam apanhar com isso. Outros que só ficam presos atrás das catorze grades de um soneto. É preciso esperá-lo com assonâncias  e aliterações, para que ele cante. 
     É preciso recebê-lo com ritmo, para que ele come a dançar. E há os poemas livres, imprevisíveis. Para esses é preciso inventar, na hora, armadilhas imprevistas

     Nesse pequeno texto se detecta, com facilidade, o lirismo que revestia a poesia e a prosa de Mario de Miranda Quintana, "considerado o poeta das coisas simples", morto em 5 de maio de 1994, em Porto Alegre. 

     Atenção, senhores fazedores de "versos": esvrever poemas, poemas de verdade, nõa é coisa fácil.

     

      
       
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 20/07/2013
Alterado em 13/09/2013


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