Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

             Voando e rezando


    1. Um amigo meu, escritor e jornalista acreditado e valoroso, confessa, publicamente, que morre de medo quando está a bordo de qualquer tipo de avião, desde o mais humilde teco-teco ao mais moderno e sofisticado Boeing.
     2. Em terra, ele se diz ateu e se vangloria dessa sua descrença nas coisas do céu. Dentro de um avião, voando, carrega no pescoço, discretamente, um Terço de prata e no bolso do paletó um santinho de São Cristóvão.
     3. São Cristóvão, segundo conhecida lenda, teria ajudado uma criancinha a atravessar um rio profundo e perigoso, levando-a sobre seus ombros. Dias depois, veio a saber que atravessara ninguém mais do que o Menino Jesus. Por causa deste seu ato, considerado nobre pela Igreja, o título de Padroeiro dos Viajantes lhe foi dado pelo Vaticano.
     4. Para o meu amigo, São Cristóvão o ajuda a atravessar as turbulências que fazem os aviões requebrar, a mais de 10 mil metros de altura. Durante o voo, ele reza Ave-Marias e piedosas jaculatórias que, garante, lhe ficaram na memória, apesar de sua decisão de não acreditar em nada "que diga respeito a santos."
     5. Para justificar seu medo de voar ele costuma repetir a frase de outro colega jornalista, tão medroso quanto ele, segundo a qual "todo homem se julga imortal - até entrar num avião". Tese, aliás, com a qual concordo, sem tirar nem pôr. Também tenho medo danado de voar.
     6. Alguém escreveu, que Vinicius de Moraes - cujo centenário de nascimento está sendo festejado este mês - "morria de medo de avião."
E para viajar tranquilo, fazia o que Mãe Menininha do Gantois lhe ensinara, ou seja, "esfregar no corpo um bolinho com farinha de mandioca e água". Não sei se esta estória é verídica.
     7. Estou escrevendo tudo isso para dizer que, morrendo de medo, preparo-me para uma viagem de aproximadamente oito horas de voo. É muito voo!!! Vou cortar o Atlântico sabendo, desde já, que, na hora de ultrapassar a linha do Equador, meu avião -TAP Air Portugal- vai jogar paca. Fazer o quê?  Rezar, rezar, rezar!
     8. Estou de malas prontas; todas com fitinhas do Senhor do Bonfim a identificá-las e  protegê-las; é um costume adotada na Bahia pelos que acreditam ou não no padroeiro da Boa Terra. Vou rever Lisboa, Londres, Amsterdam e Barcelona; vou conhecer Bruxelas, Bruges e Berlim. 
     9. Para voar, já decidi, não vou seguir o conselho da saudosa Mãe de Santo baiana dado ao Poetinha. Diferente de Vinicius, não sou ligado ao Candomblé. Vou voar, como sempre faço, transformando em oração, estes versos do Manuel Bandeira:


        Oração para aviadores

          Santa Clara, clareai
          Estes ares,
          Dai-nos ventos regulares,
           De feição.
          Estes mares, estes ares
          Clareai.
                    Santa Clara, dai-nos sol.
                    Se baixar a serração,
                    Alumiai
                    Meus olhos na cerração.
                    Estes montes e horizontes
                    Clareai.
          Santa Clara, no mau tempo
          Sustentai
          Nossas asas,
          A salvo de árvores, casas
          E penedos, nossas asas
          Governai.
                    Santa Clara, clareai.
                    Afastai
                    Todo risco.
                    Por amor de São Francisco,
                    Vosso mestre, nosso pai,
                    Santa Clara, todo risco
                    Dissipai.
                         Santa Clara, clareai.

   10. Volto a bordo do transatlântico MC Preziosa, na sua primeira viagem pelos mares do mundo. Inda bem!


  
     
 

    
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 21/10/2013
Alterado em 05/12/2019


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