Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                  Beijinhos na tevê


     1. Andei dizendo por aí, que o beijo na boca não é um costume novo. E, ao mesmo tempo, garantindo que o Velho Testamento fala nesse ato de inefável ternura, apesar de alguns o considerarem um ósculo anti-higiênico.
     2. Um amigo meu, carola juramentado, veio me perguntar se era verdade que os profetas e os evangelistas haviam se manifestado, em seus escritos, sobre o beijo na boca.
     3. Respondi-lhe que sim. E ele ficou ruborizado quando eu lhe disse que o beijo na boca aparece nas páginas de um dos livros mais badalados da Bíblia velha.
     4. Boquiaberto, ele não quis acreditar. Para ele, um escriba de textos sagrados jamais seria capaz de registrar nos seus livros "esse tal de beijo na boca". Mormente nos moldes em que eu o descrevera, mostrando dominar bem este assunto.
     5. Pretendendo convencê-lo - e para alcançar esse "milagre" passei uma noite em claro debruçado sobre o Velho Testamento -, recitei, ele ouvindo atentamente, um pedaço do Cântico dos Cânticos, para os pesquisadores religiosos e laicos "o poema erótico da Bíblia". Nem São Jerônimo, o santo da Vulgata, se atreveu a escondê-lo, disse eu.
     6. Salomão, o suposto autor do Cântico dos Cânticos, escreveu, disse ao amigo, com a mão no seu ombro: "Teus dois seios são como dois filhos gêmeos de gazela! [...] Teus lábios gotejam doçura, como um favo de mel, e debaixo da tua língua se encontram néctar e leite..." Ora, como fazer tamanha constatação sem ter provado os beijos desses "lábios que gotejam doçura, como um favo de mel..."?
     7. Ouviu, e pasmo ficou o meu amigo carola. Olhando pros seus olhos esbugalhados, quase que descobri neles um discreto sentimento de arrependimento por não ter, até então, beijado muitas bocas.
     8. Não sei se ainda poderá fazê-lo: a idade e dentadura postiça certamente o impedirão de sorver, com aquela gulodice juvenil,  de alguma boca, o mel, o néctar e o leite de que fala o poeta bíblico.
     9. Corria o ano de 1951. E, de repente, a televisão mostrou, numa picante cena de novela, a troca de beijos na boca entre dois famosos artistas: Wálter Forster (1917-1996) e Vida Alves, hoje, com 86 anos de idade. Sua vida me pertence, na tevê Tupi, era a novela, ainda em preto e branco.
     10. Lembro-me como se tudo estivesse acontecendo hoje; até da repercussão exagerada, porém compreensiva, que esse beijo ousado ganhou, ocupando, durante meses, o noticiário dos jornais, rádios e revistas fofoqueiras. 
     11. Houve quem elogiasse a cena e houve quem a condenasse, achando que "um beijo na boca na televisão" era um desrespeito à sociedade, à época, reconhecidamente pudica e conservadora.
     12. Alguns até tentaram minimizar os possíveis efeitos negativos causados pelo ousado beijo do galã Forster na bela Vida. Diziam que tudo não passara de um inocente "selinho", ou seja, de um superficial encontro de lábios, sem a penetração recíproca das línguas, como ocorre nos dias de hoje.
     13. Seja como for, o beijo na boca, trocado pelo casal de artistas Wálter Forster e Vida Alves, na novela Sua vida me pertence, ficou na história como o primeiro na televisão brasileira, há 63 anos.
     14. Beijos na boca nas novelas, e agora são muitas, veem se repetindo com tanta frequência que já se tornou um afago rotineiro.
Mas para as noveleiras, novela sem beijos apimentados, perde a graça.
     15. Assistindo por acaso um dos capítulos da novela Em família, testemunhei, meio surpreso, os beijos na boca trocados entre duas famosas atrizes, formando um casal lesbiano unido pelo casamento.
     16. Acho que esse foi o primeiro beijo na boca trocado entre atrizes, no papel de lésbicas, na televisão brasileira. Porque entre atores, soube, que na novela Amor à vida os beijinhos gays ficaram por conta de Thiago Fragoso e Mateus Solano.
     17. Portanto, esses beijos trocados em novelas entre atores, como gays, e atrizes, como lésbicas, ficarão, a partir de agora, na história moderna da televisão brasileira, rompendo preconceitos. 
     18. Nada tenho a comentar. Fica com os sábios, com os estudiosos, com os sociólogos, por exemplo, a missão de avaliar até onde esses beijos amorosos trocados entre pessoas do mesmo sexo podem repercutir no seio de uma sociedade que, claro, nem de longe é igual àquela que, em 1951, assistiu a novela Sua vida me pertence

Nota - Na foto, o Wálter Forster.
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 23/07/2014
Alterado em 10/08/2014


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