Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


             Você precisa conhecer

          1. Quando eu cheguei em Salvador, idos de 1957, foram os franciscanos que, carinhosamente, me acolheram. Ex-aluno seráfico e sobrinho de um frade missionário muito querido na Ordem, foi-me concedido o privilégio de morar, durante três meses, numa cela bem fradesca do suntuoso  Convento de São Francisco, no Terreiro de Jesus, no coração do Centro Histórico.
          2. Da janela de "minha cela" eu via, em primeiro plano, o jardim do convento habitado por irrequietos beija-flores, e, ao longe, a famosa Baixa dos Sapateiros. Esse panorama urbano-rural tornava agradabilíssimo o meu recolhimento voluntário e periódico num claustro franciscano. Fiquei na modesta cela até me mudar para uma república de estudante, no simpático bairro da capital baiana chamado Barris.
          3. Cursava eu, à época, o segundo ano do curso de Direito na Universidade Federal e chegara a Salvador, transferido, como mais um cearense disposto a ganhar a vida na acolhedora terra do Senhor do Bonfim. E aqui estou há mais de meio século.
          4. Acho que em 1958 fui convidado a conhecer outro convento seráfico e sua igreja, belíssima, segundo os historiadores, "as edificações mais antigas construídas pelos franciscanos no Brasil." Não sei se é uma verdade histórica, pois, há aqueles que dão o convento de Olinda, Pernambuco, como sendo o primeiro construído no território brasileiro.
          5. Muito bem. A bordo de um pequeno navio (ou vapor) deixei Salvador à boquinha da noite e no dia de São Benedito (1526-1589), padroeiro da cidade, desembarquei em Cairu ao som de uma afinada banda de música que, no cais, recepcionava os devotos e visitantes. A noite era de festa e de plenilunio; o mar de Cairu parecia um grande lago prateado.
          6. Claro que me hospedei no Convento de Santo Antônio. E à proporção que caminhava na sua intimidade, mais maravilhado ficava com o que, a cada passo, ia descobrindo. Destaque para a Sala do Capítulo, com seu teto lindamente pintado e as imagens dos séculos 17 e 18 ali expostas. Surpreendente o altar de Santa Rosa de Viterbo, de 1729. E os eloquentes azulejos portugueses que revestiam as paredes do convento e da igreja, contando histórias.
          7. No jornal A Tarde, de Salvador, que está circulando hoje, 16 de novembro de 2014, o convento e a igreja de Cairu são mostrados em longa e oportuna reportagem. Relíquias franciscanas escondidas numa pequena cidade do baixo sul da Bahia.
          8. Cairu, distante 300 quilômetros de Salvador, fica a poucas horas de duas das mais badaladas praias da Bahia, Morro de São Paulo e Itacaré. Portanto, os turistas que frequentam os dois paradisíacos pedaços do litoral baiano, se quiserem enriquecer seus conhecimentos de história, visitem a igreja e o convento franciscanos de Cairu.
          9. A notícia que envergonha os brasileiros e em particular os baianos, está na reportagem. Escreve o repórter: a igreja e o convento de Cairu estão em "mal estado de conservação". Significa que, perdurando tal situação, adeus convento e igreja, dois monumentos centenários da Igreja Católica no Brasil, obra dos filhos de Francisco de Assis.
          10. Sei, que apesar dos esforços dos frades menores, entre eles o saudoso Frei Lucas Dolle, guardião do convento durante anos, as obras de restauração do complexo seráfico de Cairu não foram adiante. Estão interrompidas. Fosse a construção ou reforma de um estádio de futebol, e logo apareceria alguém para tocar as obras.
          Por isso, cuidem os brasileiros de visitar o convento e a igreja de Cairu antes que ele e ela desapareçam do mapa.



 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 16/11/2014
Alterado em 16/11/2014


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