Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                Meu querido urubu

     1. Quando eu tinha de seis para sete anos, um desconfiado urubu pousava, todos os dias e quase no mesmo horário, no cajueiro que enfeitava o quintal de minha casa sertaneja, lá nos cafundós do Ceará.
          2. Minhas vizinhas, duas beatas mexeriqueiras, vendo a ave negra rondando o meu quintal, espalhavam que os urubus eram mensageiros do demônio. Essa notícia enchia de medo a mim e aos meus irmãos: éramos oito, três mulheres e cinco homens.
          3. Quando o urubu pousava, deixávamos o quintal correndo. Abandonávamos, às pressas, o frondoso cajueiro, de acolhedora sombra e portador de uma bem-vinda aragem nas tardes quentes do tórrido sertão.
          4. A boa Chica, minha irmã de criação, mais velha e mais experiente, nos tranquilizava, desmentindo, com fortes argumentos, a versão das vizinhas mexeriqueiras. E até ensaiava um amistoso papo com o urubu visitante.
          5. Parecendo entender as palavras afetuosas de minha irmã Chica, o urubu batia suas asas negras, mas permanecia calado. Diferente de outras aves, ele não pipila, não gorjea. Já dizia o escritor Rubem Alves, que o urubu é um pássaro "sem grandes dotes para o canto".
          6. De repente, Coronel -  este foi o nome que lhe demos - desapareceu. Se foi e nunca mais voltou; mas virou história. Muitos anos depois contei para meus filhos, botando-os para dormir, a passagem do urubu Coronel, na minha infância. Quase dormindo, eles pediam: "Pai, conte de novo!" E eu, sonolento, satisfazia-lhes o pedido.
          7. Leio, agora, nos jornais do Sul, que o sumiço de um urubu mobiliza uma família inteira no interior de São Paulo. Loro é o seu nome. Loro vivia, desde dois anos de idade, com a comerciante Telma Crepaldi, na cidade de Indaiatuba.
          8. Diz a matéria, que Loro virara celebridade; muita gente da cidade e de fora,  procurava-o,  para um selfies. Sua página, numa rede social, já havia recebido a visita de 13 mil seguidores. Que urubu querido! 
          9. Desolada com o desaparecimento do seu urubu de estimação, Telma, diz a gazeta, fez este desabafo: " Não é que eu quero ele para mim, quero que ele esteja bem, e não aprisionado em algum lugar!" Telma amava o seu urubu!
           10. Vê-se que o urubu, visto como um pássaro azarento, mensageiro do demônio, comedor de carniça, tem, também, quem lhe queira bem.  Eu, por exemplo, me lembro, com uma pontinha de saudade, do urubu Coronel.
          11. Os escritores Rubem Alves e Luís da Câmara Cascudo contaram estórias de urubus. Nunca esqueço o conhecido conto de Cascudo, intitulado "A Festa no céu", envolvendo um urubu e um sapo malandro. E de Rubem Alves, no livro "Estórias de quem gosta de ensinar", uma bela história envolvendo um urubu e um sabiá.
          12. Fecho a crônica, transcrevendo este pequeno conto, que dizem ser milenar. - "Em uma planície, viviam um Urubu e um Pavão. Certo dia, o Pavão refletiu: Sou a ave mais bonita do mundo animal, tenho uma plumagem colorida e exuberante, porém, nem voar posso, de modo a mostrar minha beleza. Feliz é o urubu que é livre para voar para onde o vento o levar. 
          13. O Urubu , por sua vez, também refletiu no alto de uma árvore: - Que infeliz ave sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos, quem me dera ser belo e vistoso tal qual o Pavão. 

          14. As duas aves tiveram uma brilhante ideia: um cruzamento entre eles seria ótimo para ambos, gerando um descendente que voasse como um Urubu e tivesse a graciosidade de um Pavão.  Então cruzaram... e do cruzamento nasceu o Peru. Que é feio para caramba e não voa! Moral da história: Se a coisa tá ruim, não inventa!!!"
          15. Desligo meu computador, e o que vejo? 
          No céu de Salvador, nesta tarde de inverno com a cara de verão, dois urubus bailando...  Que leveza! 
 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 16/09/2016
Alterado em 07/11/2017


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