Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

           Vaqueiros e vaquejadas


     1. Filho do Ceará, portanto, um nordestino da gema, mas não sou admirador da vaquejada moderna, e digo por quê. 
     2. Não me sinto confortável vendo o boi tombar na arena,  derrubado, covardemente, pelo rabo, por um peão ou "vaqueiro" pago para vencer o animal num combate desigual.
      3. Para este cabeça-chata,  não é rigorosamente procedente o argumento de que a vaquejada - que humilha um indefeso animal - faça parte da cultura do povo nordestino.
      4. A vaquejada não é simplesmente um esporte, um divertimento. É promovida com fins eminentemente comerciais; tem fins lucrativos, mobilizando inescrupulosos empresários.
      5. Movimenta milhões de reais, enriquecendo muita gente; e o pobre do boi que se lixe, para não dizer que se fôda... Não consigo ver na vaquejada um evento ligado à cultura do povo nordestino.
      6. O vaqueiro autêntico não participa desse deprimente espetáculo. Um vaqueiro legítimo pega o boi, domina a boiada no som do aboio - aquele canto prolongado e plangente, "sem palavras" - e nunca na base da porrada.
     7. Nos meus dias de sertão, conheci vaqueiros tão afinados que os passarinhos fechavam os bicos para ouvi-los. Eram verdadeiros uirapurus da caatinga.
     8. E as rezes, embaladas pelo seu aboio agregador e pacífico, deslocavam-se sob seu comando em perfeita harmonia, pelas terras ásperas do torrão nordestino.  Um espetáculo!
     9. Vaqueiros autênticos rezam na Missa do Vaqueiro, que se realiza, desde 1971, idealizada pelo Padre Jõao Câncio e pelo sanfoneiro Luiz Gonzaga.
      10. Vestidos a carater, eles comparecem ao ato religioso no sítio das Lages, a 32 km da cidade de Serrita, no sertão pernambucano, para lembrar  Raimundo Jacó, um vaqueiro assassinado em julho de 1954.
      11. Mas quando falo em vaqueiro, lembro-me de que, um dia - Oh! faz décadas! -, fui um aprendiz de vaqueiro!!!
     12. Na fulô da idade, eu frequentava a fazenda dos Felipes, a Morada Nova, no interior do Ceará, a poucas horas do Iguatu, minha cidade.
     13. Ajudado pelos filhos da Dona Donana, a matriarca da família, vez por outra, calçava as botas, vestia a perneira, o avental, calçava as luvas, botava o chapéu, tudo de fino coro, e, ousadamente dava uma de vaqueiro. 
     14. Até que numa tarde de muita chuva, relâmpagos e trovões, perseguindo uma vaca mansa, me perdi no meio do mato. Quase morri de medo. Gritava feito um desgraçado, pedindo socorro.
     15. De repente, descobri que estava a poucos metros do largo terreiro da casa da fazenda Morada Nova. Respirei e desisti, de vez, de ser vaqueiro, profissão que tanto admirava. Já contei essa história em crônicas de doces recordações.
     16. Mas voltando à vaquejada. Quero dizer que aplaudi de pé a decisão do Supremo Tribunal Federal julgando a vaquejada ilegal, com base no artigo 225 da nossa Carta Mágna.
     17. No seu voto como relatora, disse a Ministra Carmem Lúcia, com todas as letras, que as vaquejadas "são manifestações extremamente agressivas contra os animais".
     18. E que a vaquejada (e ela procurou ver algumas) "não é apenas um esporte ou atividade cultural, mas uma forma de tratamento cruel aos animais".  
     19. Ora, se agride e faz o animal sofrer, como constatou a Presidente da Suprema Corte, digam-me, por favor, adonde está o significado cultural da vaquejada.     
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 05/11/2016
Alterado em 02/02/2020


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