Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                    Apaixonado?

                                                  Gostosuras
                                   - Tua saudade tem gosto de amora.
                                      O teu beijo tem gosto de pitanga.
                                                       Mario Quintana

          1. Eu estava quase dormindo. E sem o auxílio do chá de Camomila. Ultimamente, esse chazinho tem sido meu companheiro de todas as noites. Uma xicrinha, e adeus insônia.
          Já escrevi sobre o chá de Camomila, chamando-o de o chazinho da vovó. Muitas vovós, conhecidas e desconhecidas, aplaudiram-me; algumas me mandaram interessantes receitas; as usarei, se preciso for. 
          2. Eu estava quase dormindo, dizia eu, quando meu telefone fixo tocou. Tomei um baita de um susto.           Consultei meu relógio; e vi que passava da meia- noite; meu susto foi ainda maior. Telefonema no início da madrugada? E me fiz esta pergunta: devo ou não atender?
          3. No silêncio da madruga que se iniciava, ouvindo o trin-trin do meu telefone, lembrei-me que houve um tempo em que eu atendia, sem hesitações, chamadas telefônicas, após a meia-noite.
          Foi nos meus tempos de namoro, que já estão muitíssimos distantes... Fazia-o com a maior naturalidade, estivesse eu morrendo de sono.
Podia ser ela... 
          4. Podia não ser. As mancebas daqueles inesquecíveis anos costumavam me ligar, altas horas, de suas camas, de suas redes e até de seus sofás. E descreviam, escondendo a voz, como, naquele momento, elas estavam na intimidade de suas alcovas, reativando a libidinosidade deste atrevido escriba. 
          Na sua grande maioria, elas se diziam vestidas de camisolas transparentes, que lhes permitia mostrar os seios, alguns meus velhos conhecidos.  Idos de 1950; ainda não existia o Face-Time, genial recurso oferecido pela internet, facilitando a troca de imagens em tempo real. 
          5. Mas eu dizia que levei minutos para atender o madrugador telefonema. Ao atender, surpreendi-me com a voz doce e dengosa de uma querida amiga, como eu, também viciada em crônicas e poesias. 
          Começou, renovando sua paixão por Rubem Braga(1913-1990), o sabiá da crônica, e por Bilac (1865-1918), o poeta das estrelas (lá do céu). E, mais recentemente, pelo poeta Mario Quintana (1906-1994), gaúcho de Alegrete.
          6. Camélia, é a sua graça, como se diz nos confins do meu Ceará, ao invés de preferir "fulana é o seu nome".  De pronto,  a amiga perguntou-me se eu conhecia a obra de Mario Quitana.
          Não esperou a resposta. Adiantou-se, fazendo este pedido: "Uma crônica, inserindo nela  o "Bilhete", versos de Quitana". Prometi atendê-la. Sabia de cor  o poemeto "Bilhete", do belo vate dos pampas.
          7. Alô, Camélia, atendo seu pedido.

  "BILHETE - Se tu me amas, ama-me baixinho
   Não o grites de cima dos telhados
   Deixa em paz os passarinhos
   Deixa em paz a mim!
   Se me queres,
   enfim, 
   tem de ser bem devagarinho, Amada, 
   que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
          8. Olha! Qui bom reler Mario Quintana! Camélia me fez voltar a ele. Abri um dos seus livros, e li "A oferenda" - "Eu queria trazer-te uns versos muito lindos.../ Trago-te estas mãos vazias/ Que vão tomando a forma do teu seio".
          Estará o cronistas apaixonado? Está, sim, cada vez mais por poesia... E a Camélia foi magnífica: me fez ler versos (de Quintanas e outros vates) em pleno sábado de Alelúia...

                
   
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 11/04/2020
Alterado em 11/04/2020


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras