Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

               Um getulista doente

     1. Meu pai, um getulista doente, comemorava o aniversário do Gegê, 19 de abril, bebendo um boa cachacinha cearense. 
     2. Enquanto viveu, o velho, nessa data, obrigava a família, o papagaio e o cachorrinho de estimação a dar parabéns ao aniversariante ilustre, mal o sol nascia. 
     3. Um enorme retrato de Getúlio Vargas (com seu inconfundível sorriso), que não saía da sala de visitas de minha casa, recebia de minha mãe, na manhã do dia 19 de abril, um buquê de açucenas, a flor mimosa do sertão.
     4.  Na minha cidade, no interior do Ceará, no dia 19 de abril, os colégios desfilavam, inclusive o meu. A banda de música tocava patrióticos dobrados no coreto enfeitado de bandeirinha verde-amarelo. 
     5. Na praça da igreja matriz, onde eu morava, Getúlio recebia as homenangens do povo. Pobres e ricos se uniam para saudar o doutor Getúlio, que reinava absoluto no Palácio das Águias, o lendário Palácio do Catete. 
     6. O prefeito, correligionário de Vargas, aproveitava o palanque para discursar, adulando o chefe. Proclamava, aos gritos, as virtudes do aniversariante e enumerava, às vezes, exageradamente, seus méritos.
     7.  Era ouvido, sob efusivos aplausos, por seus eleitores, que se desmilinguiam em gargalhadas provocadoras; e a oposição replicava, xingando o regime reinante, seus artífices e seus defensores. 
     8. Nada, entretanto, tirava Getúlio da chefia da Nação, alcançada, primeiro pelas armas e depois pelo voto.
     Permanecia intocável no Catete, vivendo momentos de intensos prazeres e atravessando monstruosas turbulências políticas e pessoais. No meio de uma delas, suicidou-se - agosto de 1954. 
     9. Getúlio Dornelles Vargas nasceu na cidade gaúcha de São Borja no dia 19 de abril de 1882. Foi casado com dona Darci Vargas.
     Seus filhos com ela: Manuel, Lutero, Jandira, Getúlio e a polêmica e poderosa Alzira, a Alzirinha, a filha querida do Gegê. É formidável o seu livro "Getúlio Vargas, meu pai". 
     10. Escrevi esta crônica para não deixar passar in albis o aniversário do estadista (sim, ele foi) dos pampas. 
     11. E, ao mesmo tempo, lembrar um dos seus mais fieis seguidores e entusiasmado eleitor, meu pai. 
     Oh! quantas vezes o surpreendi assobiando essa marchinha, singela, mas eloquente: "Bota o retrato do velho outra vez,/ Bota no mesmo lugar./ O sorriso do velhinho/ Faz a gente trabalhar".
     Ah, meu inesquecível velho Raul, um getulista doente!
      
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 18/04/2020
Alterado em 23/04/2020


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