Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


              Tanatofobia

     1. A televisão virou um imenso obituário. Ocupa-se, com exagerada frequência, em noticiar, com riqueza de detalhes, a morte dos brasileiros abatidos pelo virus da vez, vulpino e covarde, devastador, assassino cruel.
     Esse trágico e massacrante noticiário me enche de inenarrável pavor.
     2. Nasci tanatófobo. Quero dizer: nasci com medo da morte e de tudo o que lhe diz respeito, por exemplo, os velórios. Nem São Francisco de Assis, meu santo protetor, que chamou, em belo poema, a morte de irmã, me fez perder esse medo. 
     3. Vendo cadáveres desfilando na tela da TV, medroso, ponho-me a imaginar que serei o próximo a comparecer àquela sombria passarela erguida pelo implacável coronavírus. Aí, perco a graça!
     4. É deveras constrangedor ficar ouvindo, o dia todo e a noite também que foram X mais Y os brasileiros mortos nas últimas vinte e quatro horas. Fujo desse fúnebre noticiário e vou assistir programas vazios, porém alegres, como o do Silvio Santos.
     5. Ontem à noite, liguei meu celular e alimentei um demorado papo com uma amiga, tanatófoba qui nem eu. Ela, lá pras tantas, me segredou que já não aguenta ouvir a televisão anunciando os que morreram "nas última vinte e quatro horas", vítimas do tal vírus.  E que optou por programas como o do Ratinho.
     6. Passamos quase uma hora trocando ideias sobre a Tanatofobia. Aproveitei para lhe aconselhar a leitura de "A morte na visão do espiritismo", do estudioso da filosofia espírita, Alexandre Caldini Neto. Sensacional! Indicado para quem tem medo da morte.
     7. Vejam só. Ligada na minha conversa sobre a Tanatofobia, uma pessoa de minha casa, mal encerrei a ligação, foi logo me perguntando: "Nossa! Essa doença pega? É contagiosa? Tem vacina? Mata?". Levei um tempão explicando-lhe o que é a Tanatofobia. Ela ficou de queixo caído e menos tensa. 
     8. Para preencher o vácuo provocado pelo isolamento ( Alô, Messias!) andei lendo o livro "Contos de amor rasgado", da excelente escritora Marina Colasanti, mulher do não menos excelente escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna. 
     9. Descobri, no livro da bela escritora um interessante miniconto sobre a morte. Já que é dela que aqui estou tratando, vou transcrever o referido conto, para deleite dos meus pacientes leitores.
               "A paixão da sua vida  -  Amava a morte. Mas não era compreendido. Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço. Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a MORTE, enciumada, estorou-lhe o coração". Gostaram?
     10. É isso aí. A morte é farsante, desleal, fingida.      Sêneca, brilhante advogado e exuberante escritor do Imperio Romano, nascido em 4 a.C. e morto no ano 65, escreveu: "É incerto o lugar onde a morte te espera; espera-a, pois, em todos os lugares".
     Ela vai me pegar neste ou naquele lugar, mas, garanto, não vai ser fácil.      
           
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 16/05/2020
Alterado em 16/05/2020


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