Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


              Com ciúmes do Bruxo 

     Machado de Assis, segundo seus biógrafos, teve duas paixões e um grande e definitivo amor. As duas paixões foram Gabriela Augusta da Cunha, atriz portuguesa, e Augusta Candiani, cantora lírica italiana. Agora, o seu grande e verdadeiro amor foi Carolina Augusta Xavier de Novaes, uma dama portuguesa.
     Carolina casou com Machado de Assis no dia 12 de novembro de 1869. Viveram felizes durante 35 anos.      Carolina morreu primeiro. Desencarnou no dia 20 de outubro de 1904, deixando o Bruxo arrasado. Foi uma mulher importante na vida dele. Segundo o próprio Machado ela o teria ajudado a escrever "As Memórias Póstumas de Brás Cubas", considerado o seu melhor romance.
     Estão lembrados do célebre soneto que o Bruxo fez pra sua amada? A primeira estrofe, que a seguir transcrevo, é de uma inenarrável ternura. Ei-la:           "Querida, ao pé do leito derradeiro
          Em que descansas dessa longa vida,
          Aqui venho e virei, pobre querida,
          Trazer-te o coração do companheiro."
     Mas, de acordo com depoimentos vários, o escritor de "Helena" e "Magdalena" não era mole, quando solteiro. Namorador, como bem poucos.
     No "Almanaque - Machado de Assis", Luiz Antônio Aguiar, seu autor, insere, no capítulo "Outros amores", o pedaço de uma carta do Bruxo para Carolina, convencendo-a a não ter ciúmes dele. A carta é de março de 1868-69.
          "Acusas-me de pouco confiante em ti? Tens e não tens razão; confiante sou; mas se não te contei nada é porque não valia a pena contar. A minha história passada no coração resume-se em dois capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo.Não me acuses por isso; há situações que se não prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou-me com os seus conselhos a rasgar a página desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso. Eis tudo."
     Carolina, depois de ler essa desculpa amorosa, fruto do lirismo desse incomparável Machado, seu noivo, creio eu, deve ter dito o seguinte: "Como não acreditar nesse homem!"
     Perguntem, hoje, no dia dos namorados, a qualquer mulher, se não perdoaria seu amado, acusado de uma eventual infidelidade, ao receber uma correspondência igual ou semelhante à carta de Machado para Carolina.
     E eles, que sigam o exemplo de Machado de Assis quando, de repente, até sem querer, se percam doidamente nos braços da outra, numa venial infidelidade... 
          
     

     
            
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 12/06/2020
Alterado em 12/06/2020


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