Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


            O abacate e o advogado

     1. Mantenho, na parede de meu gabinete, uma foto minha colando grau em Direito. Recebi meu anel e meu diploma no dia 8 de dezembro de 1961 das mãos do Diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia; há cinquenta e nove anos, portanto.
     Advogado aposentado, confirmo o que tenho dito ao longo de todos esses anos: orgulho-me do anel de rubi que recebi há mais de meio século.
     2. Meu dileto leitor deve estar a se perguntar o que liga o abacate ao advogado ou o advogado ao abacate. E certamente fazendo esta observação: Que história é essa que esse cronista traz para sua crônica, quando tem coisas muito mais importantes a serem abordadas.      
     Por que, por exemplo, não se preocupar em defender o Supremo Tribunal Federal que  vem sendo hostilizado por meia dúzia de irresponsáveis e ignorantes boquirrotas.
     3. Não preciso defender o STF. Diria, apenas, que só o hostiliza quem não precisa dele.      Precisou da Corte Suprema, e logo os seus onze ministros viram, da noite pro dia, os juízes mais corretos e mais sábios da face da Terra.      Ninguém mais do que eles sabe fazer Justiça.
     4. E o meu querido leitor, depois desse necessário introito, deve insistir na pergunta: o que, afinal, tem a ver o abacate com o advogado, uma fruta que, pela sua semelhança com os testículos, fora considerada uma fruta afrodisíaca. É o que tentarei mostrar a seguir.
     5. Onde fui descobrir essa estranha história, deve estar querendo saber o atento leitor.       Muito bem. Eu disse em outras crônicas que o isolamento ao qual a Covid-19 me condenou, levou-me ao encontro de livros que há muito dormiam nas minhas estantes. Por falta de tempo, posto que, escravo dos afazeres cotidianos, condenara-os ao esquecimento. 
     6. Não é assim, que, noite dessas, perambulando por uma de minhas estantes, reencontrei-me com os dois volumes de um livro, cujo título, no primeiro momento, causa espanto: "A Casa da Mãe Joana".
     Seu autor, o professor de Português e também advogado, Reinaldo Pimenta, reuniu, em centenas de páginas, "Curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas".
     7. Num dos volumes, a gente se surpreende com um capítulo intitulado "Abacate - Advogado". Isso mesmo. Queria dizer, abrindo um parêntese, que sou acusado de ser viciado em citações e de as inserir nos meus textos.      Ora bolas, que mal faz transcrever, "ipsis litteris" - olha o velho advogado, jovens causídicos! - o que dizem os citados, dando, assim, a autenticidade necessária à citação?      Não estou nem aí e fecho o parêntese.
     8. Vejam, portanto, o que escreveu o professor Pimenta sobre o "Abacate - Advogado", em um dos volumes de "A Casa da Mãe Joana". Vamos lá.
     "O abacate já era cultivado pelos astecas, que chamavam a fruta de awálcat , testículo, por causa da semelhança na forma. Eles acreditavam que a fruta era afrodisíaca. 
     A palavra deu no espanhol aguacate e daí o nome foi ganhando diferentes formas em vários idiomas, entre eles o nosso abacate.
     Já no francês, ficou avocat, que significa não só abacate, como também advogado. Por que?
     Em latim, o verbo vocare  (chamarrecebeu o prefixo ad - (para junto de) e deu origem  a advocare (chamar para ajudar). Do particípio desse último verbo, advocatu (chamado para ajudar) vieram o português advogado, o francês avocat e o espanhol abogado".
     9. 
Considero, em parte, um tanto folclórica a origem da palavra advogado trazida pelo professor Pimenta, no seu "Na Casa da Mãe Joana".
     Fico com o mestre Deonísio da Silva, que no seu livro "A vida íntima das palavras" dá a palavra advogado como originária do latim "advocatu", e só. 
     10. Encerrando. Inda bem que não instituíram o nosso saboroso abacate, com sua configuração marcantemente masculina, como o fruto símbolo dos advogados, eu, como disse, um deles.
     Continuamos tendo a deusa Themis como nossa referência profana e Santo Ivo como nosso padroeiro, com Procuração, ampla e irrestrita, pra nos defender lá por cima.    
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 19/07/2020
Alterado em 19/07/2020


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