Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

            No mesmo dia

             É raro ver entre os olhos
               Uns olhos como estes teus,
               Neles vejo o quanto pode
               A mão criadora de Deus.
                                   Patativa do Assaré

     
     1
. Hoje, 5 de março, amanheci lendo um poeta genial. Antônio Gonçalves da Silva é o seu nome de batismo. No mundo dos vates verdadeiros ele é conhecido como Patativa do Assaré. Extraordinário poeta, Patativa foi um cantador impecável das belezas e agruras do sertão nordestino.
               "Eu canto o sertão querido/ A fonte dos meus poemas/ Onde se escuta o tinido/ Do grito da sariema/ E onde o sertanejo véio/ Observa os Evangéios/ E nas noites de luá/ Sirrindo, alegre e ditoso/ Conta istora de Trancoso/ Pra o seu neto iscutá".
     
2. Patativa nasceu no dia 5 de março de 1909, na pequenina Serra de Santana, povoado distante 18 quilômetros da cidade cearense de Assaré; e em Assaré morou até morrer, no dia 8 de julho de 2002, aos 93 anos, portanto.      Morreu ouvindo os passarinhos que ele tanto cantou e amou. 
     
3. Não frequentou colégios  e nem universidades. Seu colégio e sua universidade foi o sertão cearense. Sem diploma e sem anel, por incrivel que pareça, ele deixou centenas de poemas hoje reunidos em vários livros. Merecendo destaque o livro "Cante lá que eu canto cá", onde o amigo vai encontrar  "A triste partida", poema musicado por Luiz Gonzaga e que faz o nordestino chorar...
     
4. Pois é. De repente me deu vontade de escrever sobre Patativa, o ilustre aniversariante. Não há dificuldades: sempre se tem o que dizer e escrever sobre ele e sua atraente obra. Mormente por quem, como eu, viveu o dia a dia do sertão, seus encantos e desencantos. Suas alegrias e suas tragédias.
     
5. Escrever sobre Patativa e não transcrever pelo menos um dos seus poemas é inadmissivel. Vejam o soneto que ele escreveu sobre sua terra natal. 
               Minha serra
Quando o sol ao Nascente se levanta,
Espalhando os seus raios sobre a terra,
Entre a mata gentil da minha Serra,
Em cada galho um passarinho canta.
          Que bela festa! que alegria tanta!
          E que poesia o verde campo encerra!
          O novilho gaiteia, a cabra berra,
          Tudo saudando a natureza santa. 
Ante o concerto desta orquestra infinda
Que o Deus dos pobres ao serrano brinda.
Acompanhada de suave aragem,
          Beijando a choça do feliz caipira,
          Sinto brotar da minha rude lira 
          O tosco verso do cantor selvagem.

     
6. Pois não é que nasci no mesmo dia do Patativa! No dia 5 de março, no século passado, também numa pequenina cidade, Carius, no alto sertão cearense.
     Por causa desse virus sacana, nem para a missa posso ir. E muito menos, com Ivone, tomar um bom vinho no restaurante de nossa preferência. Esse ano não tem velinhas para soprar... La-men-tá-vel... porque gosto.
     
7. "Nascuntur poetae..."; traduzindo: Poetas nascem, diziam os romanos da antiga Roma.      Patativa nasceu poeta; eu não. Nunca escrevi um verso. Nem pros meus amores nos meus tempos de mancebo apaixonado. Inda bem que tenho o Patativa que me permite festejar meu aniversário lendo seus lindos versos. 

Nota - Grato aos que se lembrarem deste feliz cronista...          
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 05/03/2021
Alterado em 05/03/2021


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras