Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

               O poder da vassoura
 


     1. Não há coisa pior no mundo do que uma visita fora de hora e sem hora para terminar. Quero dizer o seguinte: o visitante chega na sua casa sem ser convidado, senta-se e se dana a conversar, sem ligar para o relógio.
     Garanto que muitos dos meus amados leitores já passaram por esse cruciante vexame. 
     
2. E tem aquele visitante que chega na hora das refeições pedindo mil desculpas pela "coincidência do horário". Aproveita, e passa a fazer extensos e cansativos elogios ao tempero da cozinheira que, de repente, pode ser a dona da casa.
     Na saída, pede a receita do bacalhau a Gomes de Sá ou do filé mignon, ao molho madeira, que acabara de saborear.
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3Há visitantes, que recebê-los, na hora das refeições, dá prazer; abrem o apetite. São mensageiros de ternura e paz. Discutem qualquer assunto; do futebol à gastronomia. Conhecedores de bons cardápios, não há melhores companheiros nas mesas de restaurantes.  
     
4. Sábado desses, não faz muito tempo, por volta das nove da noite, meu celular tocou. Atendi e ouvi: "Olha, tô chegando por aí". E desligou. Não houve tempo para fazê-lo desistir da visita.
     Me pus, então, a pensar, o que dizer ao colega ao retornar a ligação. Chamei-o ao telefone. Pedi-lhe para não vir, alegando que estava em quarentena, atingido pela Covid-19, o que não era verdade. E ele: "Sem problema: estou vacinado e usando máscara". 
     
5. Chegou, elogiando minha performance e zombando de minha Covid. Antes de se sentar, abriu a primeira garrafa de uísque que encontrou pela frente.  Encerrou a visita quando meu velho relógio de parede, comigo há mais de trinta anos, marcava meia-noite e meia. 
     
6. A pergunta é:  o que o fizera encerrar o papo, pegar sua capanga e se mandar? As orações de Ivone, já sonolenta? Não. A história é outra.
     Mesmo enfadado, lembrei-me que, recentemente, re-encontrara,  em "Coisa que o povo diz", livro do folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), a receita para expulsar visitantes que incomodam: por uma vassoura atrás da porta.  Uma receita antiga como a Sé de Braga. 
     
7. Vejam o que escreveu Cascudo: "Uma das formas aconselhadas para abreviar as visitas intermináveis é colocar a vassoura atrás da porta" E completa: "...ato supersticioso com mais de vinte séculos de existência".
     
8. Aproveitando um cochilo do amigo, já perseguido pela sonolência etílica, coloquei atrás da porta a primeira vassoura que descobri na cozinha.      Pois não é que deu certo? De repente meu amigo começou a se despedir e partiu, Da janela, acompanhei seus passos lentos e pendulares.
     Oh! Qui vassoura poderosa!
 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 01/04/2021
Alterado em 03/04/2021


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