Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


           Não foi Garrincha


     1. Em crônica recente, com este título - "Pelé Por que Pelé?" -, manifestei-me, sem papas na língua, contra a mudança do nome do Maracanã.      
     Fingindo não saber por que o estádio tem o nome do Jornalista Mário Filho, deputados estaduais cariocas acharam que o Maraca devia se chamar Estádio Rei Pelé. E foram à luta. 
     
2. Mostrei, por A mais B, que nada justificava a troca de nomes. E que tudo não passava de um golpe de oportunismo político, manchando a  história do belo estádio.
     Na minha crônica, afirmei que o senhor Edson Arantes do Nascimento, se consultado, não concordaria com a troca; a não ser que de repente fosse dominado por excessiva vaidade.      Creio que Pelé tem a mais absoluta certeza de que seu nome é reverenciado nos quatro cantos da Terra.
     
3. Felizmente, o governador em exercício do Estado do Rio de Janeiro, senhor Cláudio Castro (é justo citar-lhe o nome) vetou a troca, com  ato governamental publicado no Diário Oficial. 
     Não esquecer, porém, que o veto atendeu, também, às recomendações do Ministério Público.      
     Consta que os senhores  Procuradores teriam dito que o atual nome do Maracanã "integra a identidade cultural carioca".  Têm a minha inteira concordância. 
     
4. Um pouquinho de história. O Maraca foi inaugurado no dia 16 de junho de 1950, para a Copa do Mundo de Futebol daquele ano. Lembro-me como se fosse hoje. 
     O que aconteceu. O Brasil perdeu (2X1) a Copa para o Uruguai. O jogador Alcides Ghiggia fez o  gol fatal da aguerrida Celeste, conquistando, no Maracanã chorando,  a Taça Jules Rimet.
     Inaugurado, o Maraca recebeu o nome do Jornalista Mário Filho, incansável batalhador pela sua construção. 
     
5. Vamos agora ao que me levou a escrever esta crônica.
     Há décadas, circula uma história, segundo a qual, Mané Garrincha, depois de ouvir uma palestra de Vicente Feola sobre o que, em campo, ele devia fazer, no jogo Brasil X URSS, perguntara ao bom técnico da seleção de 1958 o seguinte: "Tá bem, seu Feola. Mas o senhor combinou com os russos?" 
     É verdade? A pergunta foi mesmo do Garrincha, companheiro de Didi, Vavá, Pelé e Zagalo? 
     
6. Em crônica publicada na Folha de São Paulo, do dia 5 de abril de 2021, o brilhante jornalista Ruy Castro diz que não é verdade; que não foi Garrincha que fez esta pergunta.      Restabelecendo a verdade, escreveu Ruy que "Perguntara ao preparador físico da seleção, Paulo Amaral, e aos jogadores Gilmar, Bellini, Orlando e Nilton Santos. Todos estavam presentes naquela preleção. E nenhum escutou o diálogo".
     
7. E prossegue Ruy Castro: "Mas acabo de saber agora que, um dia, ele aconteceu. Só que não foi com Garrincha. E sim com Pipi, ponta-esquerda do Corínthians, em 1946". 
     Pipi, um "craque e grande gozador", segue Ruy, recebeu do treinador José Foquer instruções mis antes de um determinado jogo.       Pipi, então, teria perguntado: "Foquer, você conversou com eles para me deixarem fazer isso?".
     Segundo o cronista Ruy Castro, esta versão fora confirmada pelo jogador Ademir da Guia, companheiro de Pipi, "numa crônica para a Última Hora de 2 de julho de 1957". 
     
8. Portanto, a crônica de Ruy Castro (autor de a "Estrela Solitária", biografia do Mané) como disse, há pouco publicada na Folha,  tira Garrincha dessa história que rola há séculos.
     E aquela, segundo a qual, Garrincha, em viagem pela Europa, desistira de comprar um radiozinho de bateria na Alemanha. Motivo: o locutor não falava português, só alemão.
     Talvez mais uma lenda envolvendo o craque de futebol de pernas tortas que encantou o mundo. 

Na foto - O iluminado jornalista Ruy Castro. 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 11/04/2021
Alterado em 12/04/2021


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