Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

      O cronista passarinho

     1. Há quem afirme, sem admitir contestação, que, no Brasil, a crônica nasceu com Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o escritor maior.      
     Garantem os que assim pensam, que somente depois da publicação das crônicas do Bruxo despontaram talentosos cronistas na imprensa brasileira.
     
2. Entre esses talentosos cronistas estão, Olavo Bilac, José de Alencar, Coelho Neto, Humberto de Campos e Artur Azevedo. A crônica ganhou relevo e espaço.
     Uma coisa parece ter sido acolhida quase por unanimidade, ou seja, Machado retirou da crônica o estigma de subliteratura, dando-lhe autonomia e dignidade. 
     
3. Depois das crônicas do Meste de "Dom Casmurro", alguns estudiosos passaram a admitir  que escrever crônica é inequivocamente uma arte.
     Nos meus encontros com amigos cronistas, ouso dizer que escrever crônica é como escrever soneto. Na crônica como no soneto, se diz tudo, e bem, em poucas linhas. Não sei se estou certo nessa atrevida comparação. 
     
4. Viveu, no século passado, um cronista que, segundo muitos, até hoje, não apareceu outro igual ou melhor. Refiro-me ao cronista Rubem Braga (1913-1990), capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, a terra do nosso Roberto Carlos.
     Dono de textos escorreitos, revestidos da mais excelsa simplicidade, Braga conquistava fácil  quem percorria as páginas dos seus livros, com crônicas surpreendentes, eruditas e doces.
     
5. Deem-me licença para eu contar como me encontrei com Rubem Braga. Ainda noivo, idos de 1960, de Ivone , a noiva, recebi de presente, "Ai de ti, Copacabana", um dos primeiros livros do Braga. Li e gostei, até de suas vírgulas e ponto e vírgulas. 
     Muito bem. Passei na Livraria Civilização Brasileira, de saudosa memória, e comprei outros livros do velho Braga. Logo conclui que ele seria minha escola. Volvidos tantos anos,  Braga continua sendo meu mestre.
     
6. Vale registrar que Braga lançou em 1936 o seu primeiro livro de crônicas - "O Conde e o Passarinho". Depois vieram: "Um pé de milho", "O homem roco", "O verão e as mulheres", "A  borboleta amarela", e outros e mais outros, até "O menino e o tuim", de uma ternura inesgotável; seu último livro. Sempre crônicas, seu verdeiro xodó.
     
7. Os últimos anos de sua vida, Rubem Braga viveu, curtiu intensamente, na cobertura do apartamento que adquirira, na praia de Ipanema,  Rio de Janeiro, olhando para o mar. 
     Nesse refúgio bem carioca, ele escreveu para jornais, revistas e rádios; escreveu poemas e sonetos, recebeu intelectuais boêmios e amigos do peito. Nesse apartamento ele criou passarinhos, cultivou rosas, tomou seu bom uísque e amou belas mulheres.
     
8. Dizem que gostava de estar só. Certa feita escreveu: "Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar".
     Quem desejar melhor conhecer a vida desse excepcional cronista, leia "Rubem Braga- Um cigano fazendeiro do ar", escrito por Marco Antônio de Carvalho. Vale a pena.
     
9. Rubem Braga que, como disse, encantou a todos com suas maravilhosas crônicas, recebeu um justo apelido: o "Sabiá da crônica". 
     Morreu no dia 19 de dezembro de 1990.      Morreu SO-ZI-NHO no apartamento de Ipanema. Faço um pedido: nunca esqueçamos este admirável cronista... 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 13/06/2021
Alterado em 13/06/2021


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