Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


               Entre santos
               e santas sisudos


     1. Uma vez, eu menino, perguntei à minha mãe por que nossos santos e santas são tão sisudos.
     - Mãe, por que nem Maria Santíssima, que é toda ternura, aparece, nos altares, sorrindo?
     - Porque Deus quer assim, respondeu ela, na sua encantadora ingenuidade sertaneja. 
     - E eu: não concordo com Ele, fazendo-a abrir a boca rigorosamente assustada. Quase levava algumas chineladas.
     
2. E Jesus? Sua sisudez o faz mais parecido com um mestre de obra do que aquele "Pai de bondade" amado por seus seguidores; por seus irmãos.      
     Não falo sobre Deus porque Ele é um ilustre desconhecido. Quem já viu uma imagem de Deus? Se acolhemos, sem questionar, a tese trinitária, está tudo respondido.  Quanta heresia! Faz mal não.
     
3. Vejam. A verdade inarredável é que a Igreja não mostra nenhum dos seus santos e santas sorrindo. Todos estão nos altares de cara fechada.
     Não sorriem nem aqueles reconhecidamente alegres como São João Batista e São Francisco de Assis, o menestrel do Senhor. Nas minhas preces, tento vê-los sorrindo, mas não sou correspondido. 
     
4. Que São Pedro não seja um santo sorridente, vá lá. Inúmeros são os seus problemas como administrador do Céu.      Aliás, segundo sua história, ele foi sempre um homem de poucos sorrisos. Diriam os mais agressivos: foi sempre um grosso.
     Não é de se esperar sorridente um Santo Estevão, o primeiro santo mártir da Igreja Católica.
     
5. Dia desses, os jornais do mundo noticiaram o aparecimento de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima sorrindo. Não vi.
    Mas, com certeza, esse sorriso mariano fará crescer, consideravelmente, o número dos devotos da Imaculada.  
     Confesso que gosto muito mais de um sorriso do que de palavras. Nada traduz mais um amor sincero do que um sorriso verdadeiro. 
     
6. Quando estive na Grécia, visitei muitas igrejas Ortodóxas. Vi lindíssimos Ícones. Os santos Ícones também não sorriam. Não vi nem Maria Santíssima, que teria sido pintada por São Lucas, com um sorriso nos lábios! 
     
7. Já imaginaram os leitores, crentes ou não, quão saudável seria entrar num templo e ser recebido por imagens sorrindo?  Algum dia, entrarei numa igreja de imagens de sorriso aberto e amigo.
     Confortador seria, meu caro, ser recebido, por exemplo, com um sorriso do santo de nossa devoção. 
     
8. Uma amiga minha, dessas mulheres que só se casará se for de véu e grinalda; que comunga uma vez por semana; que reza o Rosário e não apenas o Terço; mas fala de Deus e o mundo, andou me criticando porque cobro o sorriso das imagens. Para ela, santo e santa não são artistas de televisão. Coitada! 
     
9. E ainda acrescenta a irrequieta donzela: "Pra que imagens bonitas?"      Nesse particular, a Igreja, contrariando a nobre beata, capricha na confecção de suas imagens: são bonitas.
     Nem sempre, até, correspondendo ao que foi, fisicamente, o homem ou  a mulher canonizada.
     Dizem que São Francisco de Assis e Santa Terezinha do Menino Jesus, eram, os dois, muito feios. Não quero acreditar.
     
10. Por que santo tem que ser feio, dona, além de sisudo? Preste-se, na figura de um santo, uma homenagem à beleleza. Por que não, senhora?
     A escritora Rachel de Queiroz, na carta que enviou à misse Brasil 1955, sua conterrânea Emília Correia  Lima, faz esta observação: "Nem a virtude se concebe sem beleza nem a divindade.      Não só os deuses dos pagãos eram belos: a própria Igreja, dentro da sua austeridade, pinta os santos formosos. Alguém podia imaginar nossa Senhora feia?"
     11. Nesse meu rápido elogio à beleza, querendo ardentemente que os santos e santas sejam belos, além de alegres, aproveito para contar esta história. 
     Uma menina, de seis anos, tinha uma mãe lindíssima. Por um motivo qualquer, foi castigada por sua genitora.
     E a manina se vingou, dizendo: "Só fico morando aqui porque você é bonita. Se você fosse feia, eu fugia de casa".
      A garotinha se chamava Rachel de Queiroz. Bênça, Santos!        
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 16/08/2021
Alterado em 17/08/2021


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