Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                 O beijo
             que nunca te dei


     1. A cidade de Surubim, também conhecida como a capital da vaquejada, no agreste pernambucano, distante 98 km do Recife, é o seu torrão natal.
     Na pia batismal o surubinense recebeu o nome de Lourenço; no Cartório, Lourenço da Fonseca Barbosa. 
     
2. Inda criança, ganhou o estranho apodo de Capiba. Músico famoso, carregando esse estranho apelido, tornou-se conhecido e aplaudido no seu Pernambuco e no Brasil. 
     Um amigo perguntou-me: por que Capiba?      Respondi-lhe: herdou do avô e que Capiba tem um estranho significado: "jumento teimoso". Coisas do meu surpreendente e querido sertão nordestino.
     
3. Depois de morar uma temporada em João Pessoa, Capiba mudou-se para o Recife. No Recife, formou-se em Direito. Mas do que ele gostava mesmo era de música. Por isso, não hesitou em trocar o Vade Mecum pelo piano.      Segundo seus biógrafos, aos oito anos de idade ele se revelou amante das claves, dos bemóis e dos sustenidos.
     
4. Em pouco tempo, suas bonitas composições, os frevos principalmente, ganharam as ruas e os salões de Olinda e Recife. E não demoraram em tomar conta do Brasil.
      Mas, além de frevos, Capiba compôs inúmeras canções; tão bonitas que encantaram cantores como Chico Alves e Silvio Caldas.      Capiba morreu no dia 31 de dezembro de 1997, aos 80 anos, deixando mais de 200 canções gravadas. 
     
5. Entre suas canções, uma encantou-me, logo que a escutei pela primeira vez; eu ainda um pirralha, mas de refinado gosto musical e excelentes oiças.
     "Maria Betânia" é a canção.
     Gravada no ano de 1945 por Nelson Gonçalves. Eu tinha dez anos, mas já estava contaminado por um exagerado romantismo. E continuo romântico, sempre que sou chamado a escrever sobre essa preciosa valsa do Capiba.
     
6. Betânia! Esse nome me traz doces recordações. Um dia, meu pai resolveu dar um presente à minha mãe e aos seus oito filhos.      Deu-nos um terreno com oitenta pés de caju.
     O terreno ficava num dos lugares mais quentes do Ceará. Os juazeiros (xerófilos) e os frondosos cajueiros davam acolhedoras sombras, espantando o calor. E o terreno virava um paraíso.
     
7. Minha mãe, muito religiosa, logo lembrou-se de dar um nome ao terreno. Chamou-o de Betânia. Justificou, dizendo que Betânia, doze vezes citada na Bíblia, fora uma aldeia da Judeia visitada várias vezes por Jesus. 
     Fomos felizes na Betânia. Por isso, continuo acreditando que o Mestre aprovou a ideia de minha mãe  e deu uma passadinha no nosso terreno, abençoando-o.
     
8. O serviço de auto-falante de minha cidade, no coração do Ceará, divulgava "mensagens sonoras", na sua maioria postadas por mancebos apaixonados e mancebas não menos...      
     Eu, um deles, deixava de comprar merenda no colégio para acarinhar meus amores, com uma "página musical" na única "emissora" da cidade.
     
9. E não foram poucas as vezes que matei a saudade de alguém pedindo aos locutores que pusessem pra tocar músicas de Orlando Silva, Carlos Galhardo, Silvio Caldas, e até do inigualável Vicente Celestino, "Patativa", "Coração materno" e "O Ébrio". 
     
10, Claro que Nelson Gonçalves não podia faltar, com seu vozeirão, cantando "Maria Betânia". Oh! Como tive Marias Betânias na minha vida de inconfundível apaixonado.
     A uma delas mandei este recado num cartãozinho róseo, sua cor preferida:
     "Maria Betânia/ Tu sentes saudades de tudo bem sei/ Porém também sinto/ Saudades do beijo que nunca te dei".
     Ela leu... e lamentamos juntos...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 12/10/2021
Alterado em 13/10/2021


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