Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                  Bendito veneno

 

 

          1. Tenho pavor a cobras.

          Não gosto de vê-las nem na televisão nos programas que lhes são dedicados, muito bem produzidos, por sinal. Vem dos meus tempos de criança este meu incalculável medo de serpentes, sejam elas quais forem. Da mais inofensiva à mais cruel.

          Naqueles tempos, vez em quando, as cobras que chamo de domésticas passeavam pelo telhado e alpendre de minha casa e as venenosas eram vistas no seu imenso quintal, enroscadas num pé de pau e fingindo mergulhadas no mais profundo sono. 

          2. Devo dizer, fazendo justiça às demais, que a jararaca e a cascavel eram as venenosas que mais frequentavam o meu quintal. Traiçoeiras, apareciam sem avisar. Meu pai, que também não gostava de cobras, ensinou-me a matá-las, executando várias na minha frente. Mas, dizendo a verdade, na vida, nunca matei uma única cobra. Não nego: preferia dar no pé do que enfrentá-las. As cobras faziam de mim um emérito covarde.

          3. Classifiquei a jararaca e a cascavel como as cobras mais perigosas, o que confirmo, aqui, pois, outras mais nocivas não conheço. Li esta historinha, há muitos e muitos anos e de tanto recontá-la, decorei. Um dia, a jararaca encontrou uma cascavel, e travaram este bizarro diálogo. A jararaca quis saber da cascavel qual das duas era a mais letal e foi logo dizendo que era ela. E justificou: " Eu, a jararaca, mordo a pessoa e vou embora. Sei que sua morte será questão de horas.

          E a cascavel replicou, dizendo: "Muito mais letal sou eu. Pico o cidadão e afasto-me imediatamente; seu corpo pode cair, morto, em cima do meu". Eu, hein? Deus me (nos) livre das duas. 

          4.  Esta história de réptil fatal, que estigmatiza as cobras, vem de muito longe.           No paraíso terrestre, uma cobra acabou com a felicidade de Eva e Adão.           Esse cruciante episódio, que ouço desde que nasci, pode não ser verídica; ser apenas uma lenda das muitas que a Bíblia conta. Ainda assim, contrariado com o que ela fez com nossa Eva e Adão, nunca a perdoei. Não fosse a cobra, poderíamos ainda viver num mar de rosas, inocentes e nus, ambos sem vergonha...

          5. Meus filhos, quando crianças, programaram uma visita ao Butantan, em São Paulo. E me arrastaram, com Ivone, até o glorioso Instituto, um "hotel" de muitas e perigosas cobras. Nunca houvera posto meus pés naquele local, por causa "delas"... É ridículo uma coisa dessa. Afinal, o Butantan é um templo onde os cientistas proucuram os remédios que curam. Vejam, o que ali acontece, agora, em tempo de Covid-19: atenção jurássicos de plantão.

          6. Ontem à noite, vasculhando meus arquivos, encontrei um recorte tirado de uma ISTOÉ de 2006, sobre a cascavel. Leio no recorte o seguinte: "Santo veneno - Composto da cascavel poderá produzir anestésico mais potente  do que a morfina". E prossegue: "Os pesquisadores extraíram do veneno da cascavel uma substância muito eficiente contra dores resultantes de inflamações agudas e crônicas e também as decorrentes do câncer". 

          7. Volvidos tantos anos, não sei dizer se as pesquisas prosseguiram; e se os cientístas (alô, incapazes, eu disse os cientistas) alcançaram os remédios que a cascavel podia dar aos enfermos e de graça. Bastava arreganhar as presas. Se algum doutor souber, mande dizer a este velho cronista que, já no ocaso, continua morrendo de medo da cascavel e seu chocalho ameaçador.

           Faltou dizer uma coisa, para fechar essa crônica virulenta. Não sei como Maria, a mãe de Jesus, esmagou, com o seu santo pé, a cabeça de uma serpente, condenando-a eternamente como traidora. Ó Maria, foi muita coragem sua! Só mesmo você, mulher abençoada... 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 03/11/2021
Alterado em 05/11/2021


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