Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                   As joias da coroa e

               os camelos do Imperador

 

 

 

          1. Se eu vos disser que não gosto de novelas, estarei mentindo. Gosto, sim. Vejo novelas, desde que seu enredo seja convincente, de bom conteúdo, e não um folhetim sem pé nem cabeça. Não sou viciado, a ponto de adoecer quando, por isso ou aquilo, perco um capítulo. Que me lembre, duas novelas fazíam-me perder o sono quando não via um dos seus capítulos: "Gabriela" e "Tieta". 

          2. Agora mesmo, a Globo está exibindo a novela "Nos tempos do Imperador", com um impecável trabalho do ator Selton Mello, no papel de Dom Pedro II, e Letícia Sabatella, no papel de dona Teresa Cristina (1822-1889), a mulher do nosso segundo Monarca. Foi imperatriz, até a República ser proclamada. Veja seu nome completo: Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Melchior Januária Rosália Lúcia Francisa de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bonosa Andréia de Avelino Rita de Liutgarda Gertrude Venância Tedea Spiridione Roca Mateilde de Bourbon-Duas Sicilias. Arre!

          3. Abro um parêntese para vos dizer o seguinte: Pedro II era namorador, mas eu garanto que ele não teria traído Dona Teresa Cristina se ela tivesse a beleza da nossa Letícia Sabatella. Dizem que Dona Teresa era muito feia; feia, mas tinha o apelido de "Mãe dos brasileiros".  Vale ler o romance do Imperador com a Condessa de Barral, com nome de batismo: Luísa Margarida de Barros Portugal. Filha da Bahia, conterrânea dos cantores Caetano Veloso e Maria Betânia, portanto, nascida em Santo Amaro da Purificação. Fecho o parêntese um tanto atrevido. 

          4. Das figuras do Império, Pedro II foi a que mais me agradou. Muito cedo, conheci sua história. Menino, morei na Praça Pedro II, na cidade cearense do Iguatu. E minha mãe, nas suas gostosas preleções domésticas, contava pros seus oito filhos quem fora Pedro II na História do Império. Duas coisa, de logo, fizeram-me admirar o filho de Pedro I com Dona Leopoldina: sua bondade, por isso chamado de "O Magnânimo" e sua amizade ao Ceará, meu berço. Essa amizade, escreveram dois marcantes episódios históricos, o das joias e o dos camelos. Resumidamente, passo a contar.

          5. Dizem os livros que o Ceará, em todos os tempos, foi o Estado mais castigado pelas secas, algumas avasssaladoras. Secas, por incrível que pareça, contadas em prosa e verso. Acompanhei uma delas, no Iguatu. Para essa simpática e corajosa cidade convergiam milhares de retirantes, vindos das cidades vizinhas, todos em situação de miséria absoluta. Armavam suas barracas na Praça Pedro II, quase em frente à  minha casa e a do vigário, o Padre José Ferreira, para os necessitados, um santo. Bom vigário, caridoso, tornei-me amigo do Padre Ferreira e me apaixonei por uma de suas sobrinhas, a linda Maria Helena. 

          6. O velho cura - já contei isso em alguma crônica cearense - sempre ao meio-dia, dava aos retirantes, da janela de sua casa, moedinhas de um e dois tostões. Essas moedinhas compravam um pão ou uma tapioca no cafezinho da esquina. Era doloroso e ao mesmo tempo apoteótico o encontro do velho cura com os retirantes do Iguatu. Como um acólito da caridade, acompanhei muitas vezes o Padre Ferreira neste seu momento de bondade plena.

          7. As secas do nordeste mexiam com o coração do Imperador Pedro II. Ele acompanhava, amargurado, o sofrimento dos sergipanos, alagoanos, pernambucanos, paraibanos, maranhenses, piauienses e dos cabeças-chatas, tudo indica em especial. Dois momentos do Imperador, eloquentes, mostrando seu carinho pela terra de Iracema e José de Alencar, e mais recentemente de Rachel de Queiroz, citando alguns nascidos em terras cearenses. Ó! são tantos os que enobrecem esse valoroso Estado e contaram suas secas!

          8. Os camelos. Para facilitar a vida dos nordestinos, seguindo conselhos de assessores dignos, Pedro II quis um dia substituir nossos jumentos por camelos. Achava que esses animais suportariam, mais do que os jegues, o chão em brasa que arrasa o sertão nas secas. Não hesitou em mandar vir do Egito 14 camelos para uns, dromedários para outros, diretamente para o Ceará. Os camelos não se aclimataram e desapareceram dos caminhos do Nordeste. Mas o Imperador tentou. Se fracassou, a história é outra. 

          9. Sobre a operação camelo, acaba de chegar às livrarias o livro do jornalista gaúcho Delmo Moreira, intitulado "Catorze camelos para o Ceará". Conta a história, que desde sua chegada em Fortaleza, até o seu desaparecimento, com o fracasso do ousado projeto do magnânimo Imperador, os camelos não foram bem vistos. Sobre o livro do Delmo, não dou maiores detalhes, leitor amigo, porque ainda navego nas suas primeiras páginas. São 283 que tenho de enfrentar.

          10. As joias. Chegando Dom Pedro II de uma longa viagem, seus assessores lhe puseram a par da seca que arrasava o Nordeste, mais o Ceará. O Monarca "baixou a cabeça", mostrando-se condoído. Não foi fazer farra com a grana do Tesouro. E não deu risadas... baixou a cabeça. Convocou uma reunião do seu ministério. Durante a reunião, seu Ministro da Fazenda, o Barão de Cotegipe, foi franco: "Majestade, não temos mais condições de socorrer o Ceará. Não há mais dinheiro no Tesouro". 

          11. Dom Pedro II, confiando no seu auxiliar, o homem do cofre, demonstrou, mais uma vez, ser amigo dos nordestinos, com este pronunciamento, citando os cearenses: "Se não há mais dinheiro, vamos vender as joias da Coroa. Não quero que um só cearense morra de fome por falta de recursos".  Um exemplo dignificante e, em tese, fácil de ser seguido. Fácil? 

 

      

           

     

          

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 26/11/2021
Alterado em 29/03/2022


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras