Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


            O bunda da Joana

 

 

     1. Calma! Não é uma crônica pornográfica.

     Olha, cheguei à conclusão que cada um de nós tem sempre um rio na sua história ou a história de um rio para contar. Eu tenho o meu, o rio Jaguaribe. Foi, por muito tempo, apontado como o maior rio seco do meu Ceará. Parecia ser verdade porque só com verdadeiras tempestades na sua cabeceira ele transbordava. Passava a maior parte do tempo sem um pingo d'água.  Uma grotinha aqui outra acolá, só para dizer que o Jaguaribe estava vivo.

     2. Quando ele enchia, vazava por todos os lados e fazia aquele estrago. Em compensação, os ribeirinhos - eu um deles, nasci em Carius, ao lado dele -  tinham, nas suas mesas, os melhores e mais saborosos peixes de água doce, a curimatã, por exemplo. Não sei se ainda é assim. Faz muitos anos que não ando por aquelas bandas. No momento, está chuvendo no Ceará, mas não tive notícias do velho Jaguaribe. Sei apenas que muitos açudes estão sangrando. É a felicidade!

     3. É assim o Jaguaribe: orgulho dos cearenses, ele nasce em Tauá, uma cidade que me diz muito, pois, lá, minha mãe nasceu. Deságua no oceano, depois de percorrer 600 quilômetros, banhando importantes cidades alencarinas. Na cheia, ele ajuda a economia desses municípios e dá ao ribeirinho tranquilidade plena no cultivo de suas terras. A  miséria acaba, pena que não definitivamente.

     4. Como disse acima, concluíra que cada um de nós, quase sempre, tem um rio na sua história ou a história de um rio para contar. E citei o meu. Mas tenho, também, a história de um rio para contar.      Foi com seu Jonas, um quilombola legítimo, residente numa pequena cidade do recôncavo baiano. Um belo cara.  Um dia, seu Jonas me contratou como advogado para defendê-lo numa demarcação de terra. Separava seu terreno do terreno do seu vizinho, um pequeno rio com um nome estranho. Falarei depois sobre ele. 

     5. Eu, advogado recém-formado (foto), com todo aquele fogo, "vesti a beca" e fui defender seu

Jonas, certo de que ganharia a causa, que se arrastava há quase cinquenta anos. A comarca, muito modesta, ficava distante de Salvador. Vademecum debaixo do braço,  anel de rubi no dedo, lá fui eu fazer minha primeira audiência, presidida por um juiz de meia-idade, que, soubera antes, adorava um uísque. Mas era competente: bom no verbo e na caneta. Em síntese, um bom magistrado.

     6. Preparando-me para a audiência, li os autos na casa de seu Jonas com muita dificuldade. A iluminação da casa, precária, vinha de uma lamparina gigante que clareava pouco. Em um dado momento, seu Jonas perguntou-me por que eu dava tanta risada, lendo os autos. Respondi-lhe: com o nome do rio que divide as duas propriedades demarcando-as; o "Bunda da Joana"! Isso é nome de rio, seu Jonas, objetei, ainda sorrindo.

     7. O pequeno rio, talvez um caudaloso córrego, de sonoridade cativante,  corria entre pedras lisas, que lhe  aumentava a queda e a velocidade. Diria um rio cantante. Á noite, quando tudo era silêncio, ouvia-se o "Bunda da Joana" escorregando no meio da madrugada. Nas suas márgens, muita manga, muita banana e muitos pés de caju azedo, bom para fazer doce, me dizia, nos distantes tempos, minha saudosa mãe, dona Luizinha.

     8. E seu Jonas, puxando conversa sobre minhas risadas: "Doutor, o nome do rio é esse mesmo, sem tirar nem pôr". E passou a me dizer tudo sobre a origem de tão estranho nome. "Doutor, há muitos anos, todos os dias, mal o sol nascia, banhava-se nas águas desse rio uma bela mulata chamada Joana. Despia-se e todo mundo vinha ver sua bunda, que arrasava de bela.  Passaram, então, a chamar o rio de o bunda da Joana". 

     9. Minha preocupação era não sorrir na audiência. Fiz o máximo para permanecer sério, cada vez que o Meritíssimo se referia ao "Bunda da Joana". Numa dessas intervenções, não resisti e gargalhei, chamando a atenção de quem estava na sala de audiência, inclusive seu Jonas. O Juiz, rompendo com a sisudez que a toga lhe impunha, acompanhou-me na risada. Até o Dr. Promotor, com sua cara de acusador, não resistiu. O que aconteceu: a audiência foi supensa e adiada "sine die". Recebi meus honorários, os primeiros, e no navio que passava, embarquei de volta para Salvador.

     10. Quando toda essa história aconteceu, corria o ano de 1962, acho que em março. Naquele momento, falar em "bunda" abertamente ofendia a sociedade excessivamente conservadora da Bahia de então. As coisas, os costumes foram mudando e passou-se a tolerar versos sobre a bunda como esses do poeta Belmiro Braga (1872-1937): "Quando ela passa todo mundo espia./ Não para a cara que não é formosa/ É sim para a bunda, e que bunda mimosa./ Em bunda nunca vi tanta magia". 

     11. Vieram depois os belos versos de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que assim versejou sobre a bunda: "A bunda são duas luas gêmeas/ em rotundo meneio. Anda por si/ na cadência mimosa, no milagre/ de ser duas em uma, plenamente".

     É a história de um rio que tenho pra lhe contar meu evoluído leitor, volvidos mais de 60 anos em que tudo aconteceu. Não é fantasia: aconteceu. Um dia, voltei ao "rio Bunda da Joana" e soube que a demarcação nunca fora feita. E que o processo estaria nos Tribunais. Dormindo?

     Meus clientes, inclusive seu Jonas, estavam mortos.

     Mas o nome do rio continua a mesmo...

 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 26/03/2022
Alterado em 29/03/2022


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