Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                  A moça

                  que enganou o coroa

 

          1. Selminha morava no Jardim das Ameixas, um bairro distante do centro da cidade. Apesar do nome tão bonito, não era um dos bairros mais calmos da capital. Havia sempre conflitos a administrar. Tanto que a polícia, vez em quando, desembarcava por lá, com armamento pesado. Era um lugar perigoso, para a tristeza dos seus bons moradores. 

          2. Com 26 anos incompletos, vividos com muita dificuldade, Selminha era uma lutadora. Seu dia começava antes do sol ascender, tocando fogo no horizonte. Apanhava sempre o primeiro ônibus que passava pela sua porta, muitas vezes em jejum, para não chegar atrasada no emprego. Quase arrimo de família, seu emprego estava acima de qualquer compromisso.

          3. Certo dia, um moço de cabelos lisos e grisalhos, rosto vincado pelo tempo,  moreno, surpreendeu Selminha chegando no trabalho. Seus olhos, cansados, porém, vivos, recolheram o farto e suplicante busto da menina, à mostra sem censura. Segundo ele, "seios apoteóticos", repetindo Sinatra, que assim chamava os lindos seios de Ava Gardner, seu grande amor. E Roberto apaixonou-se por Selminha.

          4. Traquejado, aos poucos foi se aproximando da moça. De perto, viu uma mulher de cor morena, lábios carnudos, pernas torneadas, quadris arredondados e convenientemente empinados, e, por último, coxas fartas, mal cabendo num jeans desbotado e ligeiramente enxovalhado. E o coroa endoideceu. 

          5. Como conquistá-la, foi o que lhe veio à cabeça, imediatamente. Sabia que não seria fácil. Sua idade avançada e seu casamento com Marilda podiam roubar Selma dos seus braços e dos seus sonhos...  Esses dois motivos tiraram-lhe a tranquilidade, mas não o fizeram desistir. Usou da sua experiência para afastar os óbces.

          6. Selminha, sedutora, carregava a fama de ser uma mulher que atraía fácil.           Nunca, porém, se sabia quando, de fato, ela estava amando ou gostando do homem que dela se enamorava. E o velho Roberto? Um encanecido agradável, simpático e arrumadinho. Conhecido na redondeza como um cara serelepe e de surpreendentes conquistas amorosas. Dona Marilda parecia não se assombrar com as traquinagens do marido.

          7. No começo, entre Selminha e Roberto, houve tímidas trocas de olhares. Flertes? Esses olhares demorados, profundos e eloquentes aproximaram os dois, que iniciaram uma fase de ligeiros papos, até os limites permitidos por Selminha, sempre cautelosa. Davam a impressão de estarem namorando, o que Selminha fazia questão de desmentir, com renovado vigor.

          8. Essa da pequena não assumir o namoro incomodava o Roberto. Ora, durante quase dois anos manteve esse relacionamento, mas sem ter certeza de que Selma gostava dele. Palavras de carinho e muitas prendas ela recebia. Agradecia e nada mais.           Até então, nunca ouvira dela um "eu te amo". Enquanto ele a chamava de mulher dos meus sonhos. Tantos galanteios, sem jamais tê-la levado a uma cama e possuí-la da cabeça aos pés. Ela sempre se recusava a um encontro na alcova.

          9. O comportamento estranho da Selminha levou o coroa a desconfiar que estava sendo ludibriado na sua boa fé. Apesar dela, em raríssimos momentos, chamá-lo de "amore", esse amor, entretanto, se traduzia em nada... Permanecia no vazio.

          Roberto, embora não namorasse com Selminha, sentia aumentar sua indiferença; e o que era pior: passou a desconfiar que estava sendo enganado. Resolveu, então, levar seus queixumes, suas desconfianças e suas conclusões à moça por quem se apaixonara.

          10. Chegou a interpelá-la com dureza. Assim: Por que tanto fingimento? Engana-me porquê?  Ela nem negou e em confirmou. Preferiu se defender xingando o bom Roberto, surpreso com a reação da mulher que tanto ajudara com palavras e pequenos, mas significativos, brindes. Uma ingrata?

          Sufocado pela surpreendente reação da Selma, deixou para responder em outra ocasião. Tentou várias vezes. Não encontrou Selma nos lugares de sempre. Desaparecera! Sumira! Para Roberto, não: Selma, envergonhada, se escondera.

          Em tempo - Conheci o Roberto e sua história com Selminha. Pretendi fazer dessa história um miniconto. Se fiz, não sei. Digo, porém, aos coroas: olha, se acautelem! Há muitas Selminhas soltas por aí.     

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 05/04/2022
Alterado em 05/04/2022


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