Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                    Mãos

                 criminosas

 

 

          1. Mãos criminosas voltaram a mexer com a estátua de Carlos Drummond de Andrade instalada no calçadão de Copacabana, nas proximidades do posto 6. A estátua é uma perfeição. É o poeta, sem tirar nem pôr. A estátua mostra Drummond sentado num banco do calçadão , sereno, pernas cruzadas, de costas para o mar, olhando para a Avenida Rainha Elisabeth. Quem passa por ela, não deixa de sacar uma foto. Eu mesmo saquei várias.

          2. Ela está lá, desde outubro de 2002. Foi inaugurada durante os festejos comemorativos do centenário do poeta, nascido em 31 de outubro de 1902, na cidade mineira de Itabira. Drummond era mineiro, mas apaixonado pela Cidade Maravilhosa, e em particular por Copacabana, onde morou boa parte de sua vida. No Rio, escreveu muitos dos seus mais bonitos versos e milhares de belas crônicas.

          3. Quando a estátua foi erguida, ninguém podia imaginar que um calhorda qualquer tivesse a coragem de profaná-la. Mas infelizmente aconteceu e repetidas vezes. Li, agorinha, na "Folha de São Paulo", que, pela décima terceira vez, roubaram os óculos do poeta. Uma brutalidade. Cariocas, por favor! Esses malandros não podem continuar mutilando a estátua de Drummond. É um achincalhe à memória do poeta de "E agora José?".

          4. Aqui na Bahia, não tem sido diferente com a estátua de Vinicius de Moraes erguida na praia de Itapuã, mais precisamente na Praça Caymmi. Ela mostra Vinicius sentado numa mesinha, tomando sua "cachaça de rolha", e olhando para "um mar que não tem tamanho". Pois bem: essa estátua já foi molestada algumas vezes. Por que isso, baianos? Uma boa parte de sua vida o Poetinha viveu em Salvador, cantando, em versos lindos, as belezas da Boa Terra.

          5. Os bons exemplos. Não sei se graças aos queridos Orixás, mas ninguém, até agora, mexeu com as estátuas de Jorge Amado e Zélia Gattai implantadas no bairro do Rio Vermelho, considerado o bairro boêmio da capital baiana. Registro, que as estátuas dos dois, um abraçando o outro, são tão parecidas com os homenageados que danificá-las será, sem a menor dúvida, a ousadia das ousadias. 

          6. Como também permanece intácta a estátua do meu saudoso amigo João Ubaldo Ribeiro, aplaudido jornalista e escritor baiano, nascido na ilha de Itaparica, onde teria escrito alguns dos seus romances. Sua estátua está na Praça Nossa Senhora da Luz, na Pituba, bairro onde moro há mais de quarenta anos, onde estão, repetindo Paulo Mendes Campos, "meu mar, meu bar e meu lar". 

          7. Quem já foi a Belo Horizonte sabe, que em suas ruas, foram erguidas estátuas de alguns dos seus filhos ilustres. Em tamanho normal, aparecem estátuas de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino, o autor de "Encontro Marcado". 

          8. Na minha terra, o Ceará, há duas estátuas, que pelo que vi me pareceram mui bem cuidadas. São as estátuas da escritora Rachel de Queiroz e do valente jangadeiro Dragão do Mar. A estátua do Dragão está instalada em bom lugar: no Centro Cultural que tem o seu nome. Já a de Rachel, no meu modo de ver, instalada na Praça dos Leões, a General Tibúrcio, em local impróprio. Ela está escondida. Seu lugar, disse e repito, é na Praça do Ferreira, o coração de Fortaleza. 

          9. Nas minhas andanças pelo mundo, tive o privilégio de ver estátuas seculares, todas mui bem protegidas e respeitadas. Dou um exemplo: a fabulosa estátua de Netuno, completamente nu, na Piazza Della Signoria, na exuberante Florença. Ninguém ousa tocá-la. Mesmo um Netuno, com seus orgão sexuais expostos, pra quem quiser vê-los. A Europa tem estátuas pra tudo que é lado.

          10. Choro, protestando pelo que, cariocas atrevidos, fazem com a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade,  um homem delicado, até quando cismava de fazer críticas a um cidadão qualquer; irônico, porém doce, versejando sobre as mulheres.           Amigos, não sei por que os atrevidos "iconoclastas" cariocas ainda não mutilaram o Cristo Redentor. 

          

   

        

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 14/05/2022
Alterado em 12/08/2022


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