Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                        Sorrisos sertanejos

 

     1. Num desses meus passeios pelo YouTube, aproveitando o silêncio da madrugada, em noites de cruéis insônias, descobri um cearense pai-d'égua, câmera no ombro e microfone na mão, correndo o meu sertão e fazendo maravilhosas entrevistas, até com moradores de modestas casinhas de reboco. 

          2. O meu leitor vai querer saber, e com absoluta razão, onde fica  o sertão que disse ser meu. E respondo. Fica no Ceará, a pouco mais de 300 quilômetros de Fortaleza; é o sertão do Iguatu, bela cidade onde só não fiz nascer. Ainda nos coeiros, mudei-me pra lá, após vir ao mundo na pequenina Carius, distante poucas léguas do Iguatu.

          3. O entrevistador, um cabeça-chata simpático, entrevistava gente do Iguatu e da sua zona rural - essas chamaram-me a atenção - com a desenvoltura que o assemelhava muito a um profissional de confirmada experiência. Entrevistava pessoas do mato com o mesmo carinho dispensado aos iguatuenses.           

Gente que só conhecia o mundo, graças ao rádio e à televisão. Uma "Parabólica", um radinho de pilhas, e o mundo chegava aos seus olhos e aos seus ouvidos. 

          4. Entrevistas dulcíssimas ele fazia sobre a vida daqueles sertanejos.

          Gente nascida e criada naquele torrão, e dele não se afastando nem para conhecer Fortaleza, a capital do seu Estado. Durante o ano, possivelmente uma visitinha a Juazeiro do Norte, pedir a bênção ao Padre Cicero Romão Batista, ou a Canindé, agradecer um milagre de são Francisco de Assis.

          5. Lugares tostados por sucessivas secas, mostrava a câmara. Perguntados de que viviam, com sorriso e esperança, respondiam "Vivemos da agricultura".  Mas que agricultura? Via-se que nem os bodes (que comem tudo) tinham pasto para lhes matar a fome.

          Não vi uma novilha, uma vaca leiteira e um touro galante, conquistador. Daquele torrão tiravam o quê para comer, meu Deus? Não vi nem urubús e nem carcarás, que dirá rolinhas e canários. Aquele meu sertão estava sem chuva.

          6. Mas com toda maldita estiagem, o que se via na cara dos sertanejos entrevistados, focalizadas pelo pai-dégua, eram sorrisos espontâneos e heróicos.

           E o mais interessante é que todos eles, mesmo morando em terra hostil, nenhum se disse disposto a deixar sua terra natal. Lugares fora do mundo onde o divertimento principal, descobri, eram toscas mesas de sinuca, num barzinho de beira-de-estrada. Nesse barzinha só vi sorrisos; sorrisos legitimamente sertanejos. 

          7. O entrevistador insistia: " Você tem amigos, parentes morando longe daqui? Aproveite e mande uma mensagem". Oh! Quantos alôs foram dados! Todos com a ternura que só o matuto nordestino sabe improvisar. Quantas mensagens molhadas pelas lágrimas da saudade! Nenhum, porém, se dizia disposto a deixar o querido sertão. Enfrentar, por exemplo, São Paulo, com a esperança de melhorar a vida. 

          8. Ah, meu sertão distante e belo. Felizmente continua amado por seus filhos.           Esquecido pelos políticos, e às vezes por Deus. Mas sempre alegre. Com certeza não é mais o sertão de Patativa do Assaré e de Luiz Gonzaga, mas resiste o quanto pode.           Sertão que ainda tem gente alegre e ridente, mesmo diante das intempéries. Sertão das luas cheias e do canto triste das juritis, ao cair da tarde. Estarei sonhando?

          9. Ao final das entrevistas do pai-dégua, três coisas eu não vi e me deu uma saudade dos diabos: não vi jumentos, cavalos e burros. Antigamente eles corriam o sertão de ponta a ponta. O alazão, o principal meio de transporte era o orgulho do seu apatacado dono.           

          O jumento (nosso irmão, segundo o padre Vieira , não o do estalo) e o burro pegavam no pesado. Nota-se, amigo, que motos barulhentas os substituiu. Motos acordam e amedrontam os passarinhos que dormem nos galhos dos juazeiros, a árvore rainha do meu sertão.

                    

          

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 31/05/2022
Alterado em 03/06/2022


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