Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                          No "Dia da Vovó"

           1. No "Dia da Vovó".  Para mim, que me perdoe o Papa Paulo VI, o dia 26 de julho continua sendo o dia só da avó. Assim minha mãe me ensinou, eu saindo dos cueiros. E por que assim tão cedo? Explico: a cidade onde praticamente eu nasci e passei toda a minha infância, o Iguatu, no sertão do Ceará, tinha como padroeira a avó de Jesus, Senhora Sant'Ana.

          Ainda no berço, eu já  participava de sua festa, acordando com o foguetório. A festa tinha solenes e sonorosas novenas, enormes sermões do padre vigário, quermesses, leilões, abraços e muitas brigas, até mortes. São Joaquim só passou a ser oficialmente festejado na mesma data, a partir do reinado do Papa Paulo VI; por isso, lhe pedi perdão ao contrariar sua determinação.

          2. As avós são doces, não é cansativo repetir. Gostam de ninar os netos e contar-lhes belas histórias. Eu, por exemplo, sentia-me muito feliz quando minhas avós abriam seus baús de recordações. Passava horas a escutá-las. Diferente da meninada de hoje, escrava do celular, não tem tempo para ouvir as histórias da vovó. Não sabe o que está perdendo. A vovó morre e leva para o túmulo bonitas histórias que guardava no coração. E ninguém mais contará igual a ela.

          3. Uma de minhas avós contou histórias até morrer. Já com seus 80 e tantos anos, encontrava comigo e ia logo dizendo: "Não sei se lhe contei a história..." Era minha vó materna, dona Eulina. Morreu, faz anos. Sou capaz de jurar que onde ela se encontrar estará contando histórias; que seja no céu, com a ajuda de minha mãe, sua filha. Com meu pai, como sempre foi o seu estilo, mais ouvindo do que falando. 

          4.  Neste último "Dia da avó", voltei ao livro "Minha avó e seus mistérios", do frade dominicano e excepcional escritor Frei Betto. Um belo livro! Nele, Frei Betto conta as lições de vida que recebeu de dona Maria Zina, sua avó. Achei por bem, batendo palmas para as avós, no seu dia, transcrever algumas dessas lições da avó de Frei Betto, colhidas no seu livro.

          5. Antes, vejam o que escreveram na orelha desse livro de bons conselhos: " Uma leitura tão encantadora quanto comovente, tanto para netos quanto para avós, e para filhos e pais também , e irmãos, primos, tios e sobrinhos. Para toda família, enfim".   

          O que é a amizade, perguntou  Frei Betto à sua vó. E ela: "Amizade é quando a lembrança do outro  aperta o coração". E segue: "Nada traz mais felicidade que a amizade". E completa: "Busque amizade entre aqueles que em nada dependem de você, nem você deles". 

          6. Dona Zina : "Lembrar-se de alguém é homenageá-lo". 

          7. Mais estes. "Não venda a sua vida ao dinheiro. Ele jamais poderá pagar o preço que ela vale".  -  "Não se habitue a viver com a injustiça. Mantenha viva a sua indignação". - "Contenha a sua língua. Este pequeno músculo é capaz de nos meter em grandes enrascadas. Nunca julgue que seu amigo é capaz de guardar segredo como você. Mantenha a boca fechada".

          8. E chegando ao fim. -  "Nunca desdiga a vida, pois é milagre divino". - Finalmente esta lição que gostei demais: "Felicidade é quando os anjos fazem cócegas em nosso coração".  Incrível! 

          9. Não devo terminar sem antes dizer que nada tenho contra São Joaquim. E que não há mal nenhum vê-lo homenageado ao lado de sua digníssima esposa.           

          Tão somente guardando uma tradição, confessei preferir ver Senhora Sant'Ana no seu andor, sozinha, abençoando as vovós do mundo. 

          Que o bom São Joaqim não fique zangado com este atrevido cronista.    

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 27/07/2022
Alterado em 29/07/2022


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