Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                         Sua eleição se impõe

 

 

          1. Estando no Rio de Janeiro, não deixo de dar uma passadinha na Academia Brasileira de Letras. Fica na Avenida Presidente Wilson, 203 - Castelo. Gosto de respirar seus ares. Tem momentos que sinto a presença de Machado de Assis nos seus corredores. Um desejo, apenas, impossível de ser realizado.  Satisfaço-me, vendo seus óculos e sua caneta maravilhosa expostos numa pequena sala.

          2. Em uma dessas visitas, subindo os degraus que levam ao interior do Petit Trianon, pareceu-me cruzar com Olavo Bilac e Humberto de Campos. Caindo na real, vi, apenas, a estátua do Bruxo, dando boas vindas aos amigos da Academia Brasileira de Letras, que ele ajudou a instalar, no dia 20 de julho de 1897. 

          3. Muita gente estranha, e, até pergunta, por que Petit Trianon? Por que esse francês todo nominando a casa que, no Brasil, é o templo da língua portuguesa? Tem esse nome, explico, porque é uma réplica do Palácio Petit Trianon, construído nas proximidades do Palácio de  Versailles, na França, pelo Rei Luis XV, para sua amante, Madame Pompadour. Versaille fica a vinte e um quilômetros da capital francesa. 

          4. Até pouco tempo, nossa ABL, que está aniversariando, 125 anos, era conhecida como a casa dos velhinhos sábios que se reuniam para tomar chá com torradas. Não, não é assim. A Academia, desde sua fundação, reúne os nomes mais expressivos da cultura brasileira que, chamados ou não, opinam sobre assuntos ligados ao nosso vernáculo.

          Foi grande no passado e é imensa no presente, com indispensáveis e decisivos pareceres sobre o Português, esta língua tão difícil. Por isso é grande a responsabilidade dos que elegem cada um dos seus 40 membros. Muito cuidado para não correrem o risco de imortalizar nulidades.  

          5. Dizia, minutos atrás, que, até pouco tempo, nossa ABL era vista como um abrigo de velhinhos sábios que se reuniam pra tomar chá com torradas, sem nada ou quase nada influenciarem na vida cultural do país. Creio que houve alguma injustiça nessa avaliação.           

Se os acadêmicos pouco opinarem, suas opiniões, por menores que forem, serão recolhidas como de imensa validade e utilidade.

          Se não bastasse, o valor das suas obras, que os levaram à casa de Machado, será sempre uma fonte inesgotável de sabedoria. Quanto não se aprende lendo, por exemplo, "Memórias Póstumas de Brás Cubas", do Bruxo, os romances e crônicas do maranhense Josué Montello; as obras completas de Humberto de Campos e os livros de autores modernos, que aqui podiam ser citados

          6. Nesse momento de renovação da Academia, quero fazer justiça ao seu atual presidente, o jornalista Merval Pereira. Não há como negar que o Senhor Merval movimentou a Academia. Deu-lhe maior visibilidade, recebendo figuras nunca antes cogitadas para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Cito, aplaudindo, o compositor Gilberto Gil e a consagrada atriz Fernanda Montenegro. Ambos com idade avançada, mas exemplares guardiães da cultura pátria, cada um na especialidade que Deus lhe deu.

          7. Nos meus rabiscos, que ouso publicar, tenho citado, com muita frequência, o jornalista Ruy Castro, de redação brilhante e insuperável na escolha dos assuntos para  sua coluna na "Folha de São Paulo". Além de belíssimas e destemidas crônicas, Ruy Castro, 74 anos, tem formidáveis livros publicados. Entre outros, "Carmem", a biografia de Carmem Miranda; "O anjo pornográfico", a biografia de Nelson Rodrigues; a "Estrela solitária", a biografia de Mané Garrincha; "A onda que se ergueu no mar"; "Os Perigos do Imperador" e "A noite do meu bem". São 76 livros.

          8. O "Painel das letras", da Folha de São Paulo, acaba de noticiar, que o cronista Ruy Castro "inscreveu sua candidatura à cadeira 13 da Academia Brasileira de Letras, deixada vaga pela morte de Sergio Paulo Rouanet".  Nada a questionar sobre o lançamento da candidatura e muito menos ao ingresso do jornalista Ruy Castro na ABL. Ele devia estar na Academia, desde sempre. 

          9. Senhores responsáveis pela eleição dos membros da Academia de Letras, os Imortais, atenção: o jornalista Ruy Castro não pode continuar fora do Petit Trianon, a casa de Machado de Assis. Quem o eleger, estará premiando um fantástico escritor e um combativo e culto homem de jornal. Estará, ao mesmo tempo, enriquecendo aquele sodalício. Por tudo isso, a eleição de Ruy Castro se impõe.

 

 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 01/08/2022
Alterado em 02/08/2022


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