Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                              No randevu da Zezé

 

          1. Acordei precisando de um bom assunto para escrever minha crônica. Consultei as gazetas, ouvi rádio, liguei a televisão e nada me chamou a atenção. Os assuntos eram os mesmos. Enquanto comia minha tapioca, feita com carinho por Waldelice, minha secretária do lar, resolvi buscar um assunto nos escaninhos onde guardo meu passado. Certo de que ainda tenho muita coisa pra contar.

          2. Por exemplo: meu encontro com a cafetina Zezé, bem mais velha do que eu, na minha primeira "visita" a um randevu, depois de deixar o seminário. O bordeu, de luxo, ficava num bairro de Fortaleza, distante da Praça do Ferreira, centro da capital cearense.            De ônibus, levava-se uns quarenta e cinco minutos da Praça, até a porta do casarão da Zezé, com suas belíssimas mulheres da vida. Os ônibus faziam parte de uma frota envelhecida. Mas valia a pena o "sacrifício". 

          3. Foi tudo muito engraçado. O casarão, transformado em lupanar, era muito claro, muito limpo e cuidadosamente decorado. Em uma de suas paredes, descobri uma réplica de "La maja desnuda", de Francisco de Goya, um quadro por ele pintado entre 1790 e 1800 e exposto no Museu do Prado em Madri. Eu vi.

          Os quartos recebiam tratamento especial. Preparados como se fossem para noites de núpcias. Os colchões e os travesseiros eram uma delícia a parte: cheiravam mais do que jarros de perfumadas flores e tão macios como os seios de uma jovem mulher virgem. 

          4. Eu estava só. Minto: eu estava na companhia do meu cigarrinho, um Continental ou um Hollywood sem filtro, não me lembro. Detalhe: eu ainda não sabia tragar. Engolia fumaça à beça e dividia com os circunstantes o restante do veneno que a fumaça do "Souza Cruz" trazia. O vício nascente dava ao cigarro um gostinho de chocolate. Além de me  encorajar a entrar, pela primeira vez, num bordel, lugar que jamais pensara frequentar, seminarista que fora durante mais de dez anos.

          5. Tímido, transpus o portão do prostíbulo, identificado por uma luz vermelha pendurada num dos seus beirais. Uma mulher muito bonita, elegante, delicada, recebeu-me, assim que entrei no randevu. Era Zezé, a proxeneta.          

           Agora, imaginem, meus diletos leitores e amadas leitoras, a cara e o coração de um ex-seminarista diante de uma cafetina, mulher com muitos quilômetros percorridos nas noites de pecados. Deu-me, não nego, um esquesito tremor nas pernas. Fiz-me de forte e enfrentei o desconhecido. 

          6. Minha conversa com a Zezé foi longa e desajeitada. Eu com vergonha de lhe dizer o que eu queria e ela, puta velha, puxando conversa para conquistar mais um cliente.  Em determinados momentos parecia divertir-se com meu estranho acanhamento.  Afinal, que viera eu fazer na sua casa? O diálogo prosseguiu, até ela descobrir que eu vinha do seminário. Disse me compreender e me pediu um cigarro. Olhei pro relógio; vi que passava da meia-noite. 

          7. Com uma leveza incrível, a cafetina agarrou-me pelo braço; e com a ternura de uma fada, convidou-me a conhecer os quartos do prostíbulo. Ao mesmo tempo, foi me dizendo o valor do "aluger" de cada um deles. Tomei aquele susto. E ela completou, como se estivesse a me advertir, que o preço dado não incluia a mulher que eu por acaso escolhesse. Concordava com tudo, pois, a curiosidade era grande e a sede maior ainda... Consultei meus bolsos e tive a certeza de que por falta de grana não deixaria de "estrear".  Zéze pediu licença e sumiu.

          8. Sentei-me num canto qualquer do salão, envolto no lusco-fusco típico dos lupanares. Casais dançavam. Perguntei-me se teria coragem de tirar alguém pra dançar. Enfrentei. Agarrei-me com a primeira prostituta que encontrei, a Maria, com seus trinta anos, segundo me segredou. Dei sorte: Maria, entendeu meu "drama", e me ajudou a dar meus primeiros passos no salão de dança de um cabaré. 

          9. A noite ia alta quando Maria convidou-me para "ver" os quartos. Dos cinco existentes, conheci, apenas, o primeiro. Sumimos, os dois, por baixo dos seus perfumados lençois, preparados, ao que parecia, para testemunhar  a estreia de um ex-seminarista na alcova de um confortável conventilho. 

          10. Deixei o bordel da Zezé com o sol nascendo. Despedi-me de Maria repetindo os versos acolhedores de Cora Coralina, "Mulher da vida, Minha irmã", defendendo as meretrizes, que, sem a menor dúvida, merecem consideração e respeito.

          Com a ajuda dessa velha história, mais do que cinquentenária, escrevi minha crônica, revelando um segredo que pretendia levar pro túmulo. Morreria comigo...

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 05/08/2022
Alterado em 06/08/2022


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