Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                    Com velas acesas

 

          1. Nesse fim de semana, fui a um aniversário de criança, coisa que não fazia há séculos. Festejava-se os dez anos do Khalil, neto de minha amiga Hana. Uma algazarra daquelas. Entrei no clima, mesmo a contragosto. Não tive outra opção. Era enfrentar a barulhenta festança ou voltar para casa. Não sei mesmo como aguentei aquele aranzel infantil. Sei, sim, porque era infantil. 

          2. Mesa farta. Belewa e Mamuli à beça, denunciando o sangue árabe que corre nas veias de Khalil. Tinha também cachorro quente, a única iguaria que comi, um atrás do outro, sem acanhamento. O cachorro quente, não nego, faz parte de minha história. No meu tempo de estudante, tempo de dinheiro curto, muitas vezes recorri a ele. 

          3. Abbud, filho de Hana e pai de Khalil, nasceu em Riyadh, a cidade mais bonita da Arábia Saudita. Está entre as treze mais belas cidades do Oriente Médio. Com seus pais, veio conhecer a Bahia e em Salvador todos ficaram. Na capital baiana, o destino levou Abbud pros braços de Farid, também filha de Riyadh. Casaram-se; e do casamento, nasceu Khalil, filho único. 

          4. Mas voltando ao aniversário. Na hora de cantar os parabéns, por volta de dezoito horas, meus ouvidos foram maltratados por uma música que não gosto: "Chegou a hora de apagar as velinhas, etc.,etc." Mas deixa pra lá. Convidado, Khalil se apresentou para apagar as 10 velinhas. Só conseguiu fazê-lo no segundo sopro. As velas pareciam resistir: não queriam ser apagadas? Foi a pergunta que me fiz. 

          5. Apagadas, finalmente, as velas, explodiram as palmas com os gritos de "viva Khalil", que distribuia sorrisos de menino aos presentes. Em seguida, os convivas "caíram de pau" em cima dos petiscos; e com tanta voracidade que, em pouco tempo, as bandejas ficaram literalmente vazias. 

          6. Olhando as velas sendo apagadas, sobre essa liturgia fiz este pequeno comentário, dirigindo-me a um dos convidados que estava ao meu lado. Amigo,vela acesa é sinal de vida. Por isso, nunca entendi por que, exatamente nos aniversários de nascimento, elas, indicativas dos anos vividos, sejam solenemente apagadas pelo aniversariante.  Não é estranho? O amigo, me pareceu concordar.

          7. Por tudo isso, aos parentes que me acompanharem na minha velhice venho dizendo o seguinte:  Nos aniversários que ainda espero curtir, as velinhas do meu bolo devem permanecer acesas o tempo todo. Não aceito apagá-las. E acrescento: deixem para apagar as velas que enfeitarão o meu velório. Porque aí, tudo terminou... 

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 19/08/2022
Alterado em 19/08/2022


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