Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                            Florilégio

 

          1. No seminário, Frei Paulo Kleinken, OFM, meu professor de latim, durante suas maravilhosas aulas, aconselhava a nós, seus alunos, a fazer seus florilégios.  Nas horas vagas, seguíamos, com alegria e prazer, o conselho do respeitado mestre. Ele, por seu turno, divertia-se à beça com a aceitação do seu aconselhamento por parte da rapaziada.

          2. Mas o que vem a ser um florilégio? Frei Paulo, com sua reluzente careca e seu inconfundível vozeirão, explicava que a palavra vinha do latim, florilegium; e que era uma coletânia de frases e pensamentos preciosos colhidos nas obras de escritores e pensadores notáveis. Com isso, ele nos estimulava a ler bons livros. Eu ouvia pela primeira vez a palavra pesquisa.

          3. Para pesquisarmos, amiudávamos nossas idas à biblioteca do seminário. A pesquisa não era lá essa coisa toda. Nossa biblioteca pouco oferecia. Seu acervo era formado de biografias de grandes santos e contos da carochinha. O que a gente chamava de livros profanos, ou seja, de autores leigos, muito poucos. Nem me lembro dos que havia por lá.

          4. Sei que passei meses colhendo pensamentos de Santo Agostinho de Hipona (354-430), um dos santos, cuja história, admiro, bem como a de sua mãe, Santa Mônica (331-387). Outros santos que procurei: São Tomás de Aquino e São Boaventura, o franciscano que definiu o perfil da Ordem dos Frades Menores, fundada por Francisco de Assis. Esses santos deixaram pensamentos que enriquecem qualquer florilégio. 

          5. Que fazia, então, para engrandecer meu florilégio com a participação de famosos escritores leigos? Aproveitava os dias de férias, quando os claustros ficavam a  quilômetros de distância e os olhos do padre Reitor não estavam a me vigiar, fazendo esta chata pergunta: "Tá lendo o quê?". E lia Machado de Assis, Ruy Barbosa, Coelho Neto, Olavo Bilac e Castro Alves.

          6.  Voltava para o seminário trazendo, na parte mais secreta da minha mala, tudo que havia colhido nos livros desses escritores. Citações, frases e pensamentos belíssimos que o seminário não me deixara conhecer. Recheando meu florilégio com a participação desses escritores leigos, dava-lhe maior brilho e mais conteúdo. Não eram censurados. Por isso, meu florilégio transitava livremente, o que eu achava até muito estranho. Nunca soube porquê. 

          7. Fazia um florilégio para a vida e não para Frei Paulo ou para o seminário; adorava a ideia. Desde sempre, entendera que mal não fazia inserir nos meus textos frases de escritores famosos que ajudassem a dar maior brilhantismo e beleza  aos meus textos, inclusive com a perspectiva de serem publicados. 

          8. Por que não? Santo Agostinho escreveu: "Quem é ciumento não ama"; "A medida do amor é amar sem medida"; "Amo o pecador mas odeio o pecado"; "Eu ainda não amava e gostava do amor"; "Cuide de seu corpo como se você fosse viver para sempre; e cuide de sua alma como se você fosse morrer amanhã". Pensamentos como esses cabem em qualquer texto que se respeite.

          9. E mais. De José de Alencar: "O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte". De Machado de Assis: "Felizes os cães, que pelo faro descobrem os amigos". De Ruy Barbosa: "Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado"; "A pátria não é ninguém, são todos". Para um florilégio podia haver coisa melhor? Responderia assim ao seminário se me fosse perguntado. 

          10. Fiz meu florilégio. Frei Paulo, não me lembro se ele viu. Tive que deixar o seminário. Tempos depois, relendo-o com saudades, confessei-me arrependido porque não havia fechado suas páginas com essa frase do imortal Ruy Barbosa: "Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem". Onde está meu florilégio? Não sei. Deixei-o em alguma esquina desse mundão.   

          

          

Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 31/08/2022
Alterado em 31/08/2022


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